Esperança: Disposição do espírito que induz a esperar que uma coisa se há de realizar ou suceder. Expectativa. Confiança.

Lembras-te de sermos pequenas e irmos à catequese sozinhas ao sábado de manhã? Acho que era ao sábado de manhã, não sei bem.

Aliás, recordo poucos pormenores desse tempo, mas tenho, sim, uma espécie de memória-síntese em que junto as fotocópias com as lajes para pintar no caminho do Advento, os calendários da Quaresma, as missas do grupo e as rifas para as obras da igreja. Nessa memória global, estão também os encontros, as canções, os amigos, a vaga lembrança de um verão sem fim (sim, eu sei que o Advento e a Quaresma não são no verão). Tenho boas memórias desse tempo, mas também guardo a inquietante sensação de algo que não era suficiente, de perguntas sem resposta, de uma ladainha velha incapaz de explicar-me o mundo. Acho que foi nessa altura que deixei de acreditar em Deus: ali, entre as infindáveis frases do Credo e a difícil e distante segunda pessoa do plural. Foi nessa altura que comecei a rezar um Pai Nosso adaptado − perdoa as nossas ofensas, assim como nós tentamos perdoar a quem nos tem ofendido −, e que comecei a sentir que não queria estar num lugar e num grupo cujo centro era o pecado, agora e na hora da nossa morte.

Andei muitos anos na catequese por ti e pelas nossas amigas, e também por aquela inércia da infância e adolescência de bairro em que a maior tentação eram as sessões duplas de filmes de cowboys nas tardes de domingo na RTP1. Não sei ao certo quando deixei a igreja, a catequese, a missa. Acho que foi depois da Profissão de Fé (roupa branca, vela do batismo, as confissões da praxe – não ajudo a minha mãe, zango-me com o meu irmão, falo muito nas aulas…), um momento tão bonito, mas que afinal sabia um bocadinho a fraude porque “não conta”, “não é um sacramento”, “eu nunca fiz e não faz mal”.

Tu continuaste, não foi? Fizeste bem. De certa maneira tenho pena, mas confesso que é um alívio dispor de todo o tempo para o que queremos, sem obrigações de catequese, de encontros, de missas, de retiros. É tão, tão fácil viver sem isso tudo. E sem aquela pressão inquisitória das catequistas, o remorso de faltar, as justificações elaboradas para escolhas por impulso.

Assim passaram os meses e os anos, e as vidas que fomos vivendo. À missa voltei na bênção das fitas, nalguma ocasião festiva e depois, claro, quando a Mariana inaugurou a “temporada de casamentos” (a tua foi a festa mais divertida) e eu acabei também por escolher casar pela igreja. Fizemos o ponto de situação com o padre afável conhecido dos meus pais e, com duas conversas e uma confissão (o ato de contrição resgatado a uma parte escondida do cérebro), ficámos preparados para o matrimónio. Foi bonito o meu casamento, não foi?

Quando foi preciso decidir o que fazer com os filhos pequenos, lá veio o empurrão social da catequese e eis-me aqui de novo, aos sábados de manhã, a ver-me a correr nas corridas deles, a reconhecer-me nas fotocópias com lajes para pintar no caminho do Advento, nas leituras ensaiadas com método para a missa do grupo, nas festas e nos horários especiais, nas atividades extra, nas reuniões de pais, nos compromissos… mas também nas infindáveis frases do credo, no interminável Glória cantado em latim, na segunda pessoa do plural, no Pai Nosso iniciado com fervor mas rapidamente mecanizado.

Eis-me aqui de novo. Venho ao sábado de manhã, venho à missa ao domingo, sento-me onde os miúdos escolhem, ouço, respondo, medito, penso.

Continuo a não acreditar em Deus e espero que ninguém repare. Mas não só espero isso como estou à espera. Não é inércia; estou na expectativa de respostas, de ladainhas renovadas capazes de explicar-me o mundo.

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