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Dar o melhor de si mesmo

Recentemente o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida publicou um documento sobre a perspetiva cristã do desporto e da pessoa humana.
Para muitos tal iniciativa pode parecer estranha e, talvez, até excessiva, perguntando-se o que tem a Igreja a partilhar acerca do desporto. Numa primeira leitura rápida, que aqui partilho, encontro uma resposta clara para a eventual dúvida:

Hoje em dia […] a universalidade da experiência do desporto, a sua força comunicativa e simbólica, as suas grandes potencialidades educativas e formativas, são reconhecidas e evidentes. O desporto tornou-se um fenómeno de civilização que habita de pleno direito na cultura contemporânea, permeando os estilos e as opções de vida de muita gente. Isso impele-nos a repropor a interrogação retórica de Pio XII: “como poderia a Igreja desinteressar-se dele?”.

Dar o melhor de si. Documento sobre a perspetiva cristã do desporto e da pessoa humana, Edições Paulinas, Prior-Velho 2018, 10.

E ainda:

A Igreja valoriza o desporto em si, como um ginásio de vida em que as virtudes da temperança, da humildade, da coragem e da paciência podem ser interiorizadas e feitas próprias, em que é possível encontrar-se com aquilo que é belo, bom e verdadeiro, em que é possível testemunhar a alegria de viver. Tal experiência pode ser vivida por pessoas de nações e comunidades de todo o mundo, sem diferenças de nível ou tipologia do desporto. É isso que torna o desporto um fenómeno moderno de alcance global e que, por isso, interessa vivamente à Igreja.

Ibidem, 13-14.

Desporto: um fenómeno que arrasta multidões

De facto, como poderia a Igreja desinteressar-se de um fenómeno que arrasta multidões? Se tudo o que tem a ver com o humano não lhe pode ser indiferente, como bem se afirma no nº 1 da Gaudium et Spes, aquele documento maior da reflexão cristã, então o desporto não lhe pode mesmo ser indiferente.

Logo no início do capítulo I, onde se expõem as razões e finalidades do documento, podemos encontrar uma afirmação que nos ajuda a perceber como a reflexão proposta pode ser importante.

Dar o melhor de si mesmo é um aspeto fundamental do desporto, para qualquer atleta que, individualmente ou em equipa, compita com todas as suas forças para obter o seu próprio resultado desportivo. Quando se dá o melhor de si mesmo, experimenta-se a satisfação e a alegria da realização pessoal. Acontece na vida tal como acontece na vivência da fé cristã.

Ibidem, 7.

E eu atrevo-me a acrescentar: tal como acontece na história da humanidade. Na verdade, esta interpelação para dar o melhor de si mesmo é indispensável para que cada um se possa sentir realizado na sua vida pessoal, mas também na nossa vida coletiva enquanto nação e, mesmo, enquanto humanidade. Por isso encontro neste documento pistas que nos podem ajudar a refletir sobre os caminhos e as atitudes que hoje somos desafiados a assumir.

Um desporto para o ser humano

Campeonatos da Europa de Atletismo 2018, em Berlim, Alemanha. Inês Henriques, conquista a medalha de ouro na prova dos 50 km marcha. Foto LUSA.

Depois de apresentar quais são as suas razões e finalidades, o documento apresenta uma reflexão sobre o fenómeno do desporto (cap. II); partilha, também, o pensamento cristão sobre a pessoa humana como unidade profunda e indissociável de corpo e espírito (cap. III); sinaliza alguns dos desafios mais relevantes para a promoção de um desporto justo e plenamente humano (cap. IV); terminando por apresentar o compromisso da Igreja na humanização do desporto no mundo de hoje, como instrumento de educação e formação para os valores.

Dou aqui conta, muito brevemente, de alguns dos conteúdos do capítulo III, por me parecerem relevantes na linha do anteriormente já assinalado. O seu título “Um desporto para o ser humano” por si só já me parece importante, pois claramente dá a primazia ao ser humano, indicando que o desporto deve estar ao serviço da sua dignificação e plenitude e não o contrário.

Ao longo das sua linhas fala na liberdade, no fair play, na dimensão individual e coletiva, na capacidade de sacrifício, na alegria, na harmonia, na coragem, na igualdade e no respeito, na solidariedade, bem como na abertura à busca do significado último da vida. Todas estas notas, de vital importância para o universo do desporto, parecem-me ser facilmente extensíveis ao próprio exercício da construção da nossa história humana e do nosso futuro.

Dar o melhor de si mesmo julgo ser um dos grandes desafios a que hoje temos de responder em todos os âmbitos da nossa vida, seja ela pessoal ou coletiva.

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