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João, Francisco, António e Miguel

Os amigos João, Francisco, António e Miguel vão vestidos com uma t-shirt azul, de um azulão aberto, bem à moda. As t-shirts são novas, mas querem comprar outras. Os ténis também são iguais, mas os ténis são mais caros, ficam com estes. Antes, entram num supermercado de bairro para comprar creme hidratante, corta-unhas e giletes. Vão ao barbeiro. Sabem como querem cortar: “à tropa”, mas atenção, à americana. O barbeiro oferece o serviço. Eles ficam agradecidos.

Parecem iguais – a mesma roupa, o mesmo penteado – mas são diferentes. Precisam de t-shirts novas para mostrarem que são diferentes uns dos outros e que são diferentes de tantos outros. Todavia, precisam de nomes como João, Francisco, António e Miguel para parecerem iguais. Não se chamam assim. Também não se chamam Salim, Anwer, Djamel e Yacine, os nomes fictícios que María Martín, a jornalista do jornal espanhol El País que os acompanhou nesse primeiro dia em solo europeu, escolheu para eles.

Os quatro amigos precisam de mostrar que são diferentes, para ultrapassar o anonimato da espécie de uniforme – calças, ténis, t-shirt – que receberam após o resgate em alto-mar. E, da nossa parte, precisamos de mostrar que eles são iguais a nós.

Igualdade e diferença

Este movimento pendular entre a igualdade e a diferença faz-se a dois tempos: um tempo empático, em que nos identificamos com o outro, somos o outro, e um tempo prático, em que o vemos na sua individualidade, somos com o outro.

Chamo-lhe tempo prático, porque penso no verbo fazer: fazer amigos, planos, festas, entrevistas de trabalho, o almoço, a mochila para a escola, o turno da tarde, um convite…
Tantos fazeres e afazeres que têm que ver apenas com as exigências da vida normal, que todos – nós com eles – desejamos.

Resgatar da desesperança

Conheceram-se na Líbia, no passado dia 9 de junho, meteram-se num barco de 12 metros. Pagaram 1.000 euros pela viagem. Naufragaram. Hoje começou para eles uma nova vida. Foto Oscar Corral, El País.
Conheceram-se na Líbia, no passado dia 9 de junho, meteram-se num barco de 12 metros. Pagaram 1.000 euros pela viagem. Naufragaram. Hoje começou para eles uma nova vida. Foto Oscar Corral, El País.

O tempo empático é um tempo de preparação, o tempo prático é tempo de ação. Não se excluem, não se limitam, não se contradizem. São dois tempos permanentemente necessários para resgatar as pessoas, não já ao mar, onde naufragaram numa mescla repugnante de gritos, água e gasolina, mas antes a esse lugar mental, escuro e sem fundo, onde se encontram com os pés assentes no lodo da desesperança.

A Europa tem de encontrar forma de ser uma voz de confiança, audível sobre as vozes do medo; os políticos europeus corajosos têm de liderar o discurso sobre a imigração e os refugiados e não deixar-se andar atrás dos comentários do medo.

A empatia está fundamentalmente do lado dos cidadãos, mas a política não pode ser insensível às histórias concretas e, por isso, precisamos também de políticos empáticos.

Um gesto corajoso e empático

O gesto do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, de aceitar receber, em junho passado, no porto de Valência, o Aquarius, o barco de salvamento das organizações SOS Mediterranée e Médicos Sem Fronteiras, foi um gesto corajoso e empático.
Partilho convosco as palavras da professora de ciência política Máriam Martínez-Bascuñán.

Este gesto não resolve o problema estrutural da Europa, pois continuamos a precisar de um sistema de asilo e de gestão da imigração que seja realmente comunitário e que nos responsabilize a todos. A sua maior importância reside, no entanto, na força do exemplo, no facto de que às vezes, só às vezes, as coisas são como devem ser. Esta união entre um facto concreto (receber um barco) e o valor universal que representa (a fraternidade) tem o enorme potencial de mudar o mundo, precisamente porque é exemplar.

E quão precisados estamos de bons de exemplos!

34 361 mortos

No passado dia 20 de junho, dia Mundial do Refugiado, o jornal britânico The Guardian disponibilizou online e distribuiu com a edição em papel uma lista com dados sobre pessoas que morreram a tentar chegar à Europa, desde 1993.
Abri a hiperligação que está no sítio do The Guardian e um ficheiro de 56 páginas, uma grelha horizontal com linhas estreitas e várias colunas, descarregou-se automaticamente para o meu computador, impondo-se à minha realidade, incorporando-se no meu dia.

São 34 361 mortes documentadas.
São 34 361 mortes.
34 361 mortes.

Perplexa e perturbada, procuro receber e incorporar os mortos. Conseguirei fazê-lo com os vivos?
Eles chamam-se Salim, Anwer, Djamel e Yacine, ou João, Francisco, António e Miguel.

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