Memória e vivência

A chegada dos primeiros franciscanos a Portugal deve-se ao Capítulo das Esteiras, celebrado em Assis, no ano de 1217. Nesse Capítulo, a Fraternidade dos Frades Menores tomou a decisão de ir para todos os países da cristandade de então. Eis, portanto, que um grupo de frades, dos quais destacamos frei Gualter e frei Zacarias, chegou a Portugal e estabeleceu-se no Norte do País (Guimarães), no Centro (Santo Antão dos Olivais) e no Sul (Alenquer).

Bem cedo começaram a crescer, entre os franciscanos, duas tendências: uma que privilegiava a vida nos conventos e, outra, nos ermitérios. Os frades que viviam nos conventos eram chamados “conventuais” ou “claustrais”, enquanto os outros eram apelidados de frades da “antiga observância” ou “observantes”.

Na única Província franciscana de Portugal, desde 1384, permaneceram as “tendências” Conventual e Observante. Quando, em 1517, o Papa Leão X decretou a separação entre elas, constituíram-se duas Províncias: a dos Frades Menores Observantes e a dos Frades Menores Conventuais. A Província dos Frades Menores Conventuais (ou Claustrais) contava com 22 conventos e tinha a sua sede no Convento de São Francisco no Porto.

Passadas poucas dezenas de anos, porém, por Breve do Papa Pio V, de 30 de Outubro de 1567, executado no ano seguinte, os Conventuais foram extintos em Portugal, a pedido do cardeal regente D. Henrique, e os frades obrigados a integrar-se na Província de Portugal dos Frades Menores Observantes. Portanto, a partir de 1568, os Frades Menores Conventuais ficaram ausentes de Portugal, até ao seu regresso com a chegada de frei Emanuel Brídio, a Coimbra, em finais de 1967.

Todo este lastro secular deixa um testemunho de “des-ordem franciscana” mais do que de “ordem franciscana”.
Não podemos, no entanto, esquecer que, em cada época histórica e em cada ambiente geográfico e cultural, o carisma franciscano deixou a sua marca, não só procurando testemunhar os valores da pobreza, da paz, da fraternidade, da vivência evangélica, da missão popular e da simplicidade, mas também deixando-se tocar e interpelar pelas pessoas e instituições que encontrava.

É este o espírito com que os frades menores (OFM), os frades menores conventuais (OFMConv) e os frades menores capuchinhos (OFMCap) comunicam e partilham a própria vida, dentro de uma família franciscana maior, que abrange, também, o mundo feminino, formado pelas clarissas e tantas outras congregações inspiradas no carisma franciscano e que abarca, ainda, todo o mundo laical da ordem franciscana secular (OFS).

A celebração dos 800 anos da presença franciscana em Portugal, constituiu um desafio à “conventualidade”, no sentido de “colocar no centro a comunhão fraterna”, nas iniciativas, na comunicação e no testemunho ao mundo que não entende estas diferenças no seio da família dos filhos de São Francisco.

Mesa inaugural das Jornadas, na UCP, em  Lisboa. Foto MSA, 26 abril 2018.
Mesa inaugural das Jornadas, na UCP, em Lisboa. Foto MSA, 26 abril 2018.

FRANCISCANOS: HÁ OITO SÉCULOS EM PORTUGAL

A Família Franciscana iniciou, em 2017, a celebração dos 800 anos da presença franciscana em Portugal com as Jornadas em Coimbra (16 a 17 de Junho de 2017) e as Jornadas do Porto (20 e 21 de Outubro de 2017).

As comemorações encerraram com as Jornadas de Lisboa de 25 a 28 de Abril de 2018 com uma série de iniciativas: umas Jornadas de Estudo na Universidade Católica em torno do tema: Oito séculos da presença franciscana em Portugal – Memória e Vivência, coorganizadas com o Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR); uma visita ao Convento da Arrábida em Setúbal e uma visita aos conventos de Mafra e Varatojo, no último dia, com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que “entendeu ser justo atribuir à Família Franciscana o título de membro honorário da Ordem do Infante D. Henrique, pelo trabalho ao longo dos séculos em solo português e em todo o mundo“.

Na sua bela mensagem proferida no Convento de Varatojo, o Prof. Rebelo Sousa lembrou os anos da sua juventude vividos “sob a inspiração franciscana” num grupo que reunia no Seminário da Luz e que integrava também António Guterres, “o atual Secretário-geral das Nações Unidas”, afirmou. “E foi sob a égide desta inspiração que nós meditámos, orámos, refletimos e trabalhámos a pensar num Portugal diferente”.

O Presidente da República lembrou “Francisco de Assis, bem como Clara de Assis, cuja existência e testemunho foram um verdadeiro abalo na consciência do Ocidente”. E não podia não fazer referência à escolha inédita do Papa atual do nome de São Francisco, lembrando que até pessoas “sem fé religiosa se revêm nos ideais de humildade, de simplicidade e de justiça e numa relação integral com os outros, incluindo as outras espécies”.

Passando ao papel da Família Franciscana em Portugal, Marcelo afirmou: “Muito se tem escrito sobre o modo como as Ordens religiosas reformularam e purificaram espiritualmente a Igreja… E o caso dos franciscanos continua a ser hoje um dos percursos mais reconhecíveis”. E sobre a relação dos franciscanos com o mundo frisou que “uma Ordem que associamos a um Santo que escreveu o Cântico das Criaturas, só podia estar verdadeiramente no mundo e amar o mundo, ainda que com regras diferentes das regras do mundo”.

Marcelo Rebelo concluiu a sua intervenção, dizendo que “o Presidente da República não podia ser insensível a este percurso de oito séculos, um pouco menos do que a própria nacionalidade, em que os franciscanos simplesmente, fraternalmente, souberam estar à altura de um homem chamado Giovanni di Pietro di Bernardone, que escolheu chamar-se Francisco, e que oitocentos anos depois ainda nos entusiasma como uma luz que brilhou sobre o mundo”.

Frei Fabrizio Bordin, in Conchas, Ano IX, nº 30, 6 de maio 2018

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