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InSyriaDo: Ninguém escapa à guerra

Ir ver este filme foi como que uma espécie de ‘imperativo categórico’. Com tudo o que estava a acontecer (certamente ainda está, mas já não se fala tanto disso, agora) era preciso não ficar indiferente. Ainda por cima era apresentado como um filme diferente. E é. Nesta altura em que a revista sai já não deve estar em exibição mas, se puderem, não deixem de ver.

O título diz tudo: estamos ‘Na Síria’, melhor, está na Síria, barricada num apartamento rodeado de guerra, uma ‘família’ a tentar levar a vida o mais normal possível, de acordo com as circunstâncias. Dentro do apartamento − o filme é praticamente todo passado nessa ‘sala de pânico’ onde nunca se sabe o que pode acontecer − estão os membros da família: mãe, três filhos, o sogro e a empregada (falta o pai, que não sabemos onde está); um jovem casal, com um bebé, que se refugiou ali e prepara a sua fuga; e o namorado de uma das filhas. Falta água, há-de faltar a luz; e os telemóveis e a internet, que podiam ser o modo de ‘sair’ dali, nem sempre funcionam. Mas não pode haver qualquer descuido. É preciso todo o cuidado, toda a coragem, todo o sangue frio, respeitar todas as regras. Esse papel cabe à mãe, uma verdadeira mãe-coragem que não deixa que se facilite. Mas também a outra mãe, muito mais jovem, vai ter um papel decisivo para que todos os outros, encurralados na cozinha, se salvem. É que a guerra cria sempre oportunidade para que surjam ‘abutres’, de arma na mão, que matam, pilham e violam, apenas pelo prazer de mostrar o seu poder.

A guerra é sempre muito mais do que os tiros e os mortos das bombas. Creio que é esta a marca deste belíssimo filme, se posso dizer assim, feito a partir do ponto de vista dos civis, dos que sofrem as consequências do conflito que decorre lá fora, mantido pelos ‘senhores da guerra’, pelos que vivem à custa das guerras. O filme não se interessa por quem tem ou não tem razão. A guerra nunca tem lado certo. O barulho de fundo dos helicópteros e das bombas não tem rosto, substitui muitas vezes o silêncio da casa, e fala mais do que qualquer palavra.

Todo o filme se passa num dia, de manhã até noite dentro, quando alguma luz se há-de fazer e talvez haja salvação.
Foi rodado em menos de um mês, num apartamento em Beirute, com actores sírios refugiados e duas actrizes profissionais (Hiam Abass – Oum; Diamand Abou Abboud – Halima).

Diz o autor (Philippe Van Leeuw):

Queria que o filme tivesse uma atmosfera genuína. Poderíamos ter filmado tudo num apartamento em Paris e ninguém repararia, mas o Líbano é um pouco o jardim da Síria. A língua é a mesma, tal como o estilo de vida.
[…]
O meu maior objetivo é mostrar como as pessoas normais são afetadas pela guerra. Quis saber qual seria a minha reação numa situação de guerra como esta, até onde nos mantemos íntegros num conflito… E mostrar também como, mesmo no meio da guerra, o humanismo ainda pode prevalecer. Também nessas circunstâncias, o melhor de nós pode vir ao de cima. Creio que conseguimos sempre ficar humanos, apenas com a exceção dos violadores. […]
Este filme oprime o espectador?
Quis ter a câmara a respirar em cima dos atores, se possível em grandes planos sequência, sem cortes… três ou quatro minutos de um plano num apartamento fechado dá-nos uma sensação de tempo real. Fica-se com a sensação de que aquilo está realmente a acontecer. Por isso, o espectador sente-se oprimido.

Sim, oprime e esmaga. E deve ser visto, para não esquecermos nunca os horrores da guerra. Da Síria, hoje em particular.


Insyriated, de Philippe Van Leeuw, Panorama Audience Award, Festival de Berlim 2017. Drama, M/16, Bélgica, 2017

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