Entrevista com Teresa Salgueiro

Coincidiu com o final das comemorações dos 800 anos da presença franciscana em Portugal e foi um momento de uma grande densidade artística e espiritual, em que se conjugaram a música, a poesia e a arte da iluminação.
O Mensageiro de Santo António agradece o convite para estar presente e a oportunidade de conversar com a Teresa Salgueiro que nos concedeu uma bela entrevista.

Teresa, em 2012 lançaste um disco que marca uma nova fase na tua carreira e antes, em agosto de 2011, estiveste retirada no convento da Arrábida. Porque é que escolheste este convento franciscano para ultimar e gravar este disco?

Cometi a ousadia de ir gravar um disco com alguns dos temas ainda por escrever. A música estava pronta, mas faltavam as letras. E correu muito bem.
A ideia era não gravar um disco num estúdio convencional e gravá-lo num lugar que nos permitisse estarmos alheados do bulício do mundo e estarmos completamente entregues só à música e ao processo criativo, sem qualquer outra distração que nos quebrasse o ritmo.
Este último álbum que eu gravei, Horizontes, não foi lá gravado, mas foi lá preparado e muitos arranjos foram lá feitos também.
E foi por isso, por ser um lugar de uma beleza extraordinária, a estrutura do convento que é impressionante, a situação sobre o mar, naquela serra imensa, sob o céu, aquele céu enorme. Depois fiquei também a saber da existência do frei Agostinho da Cruz, que está lá sepultado, das coisas que ele escreveu, aliás ainda musicamos as três primeiras estrofes de uma elegia à serra da arrábida que ele escreveu. Foi por essa razão de recolhimento, de contacto pleno com a natureza e outras coisas que se calhar não sabemos.
Esse primeiro disco gravado no convento chamou-se Mistério, é um disco que abre um novo capítulo na minha vida enquanto artista, porque é um disco em que eu me apresento pela primeira vez enquanto autora da música e também das letras.
É realmente um passo importante na minha vida assim como este segundo, Horizontes, que é uma continuação ou uma confirmação desse novo processo criativo muito desafiante que é criar do nada todo um repertório, em conjunto com os músicos, e depois escrever as palavras e fazer a produção do disco.

E em relação aos nomes, porquê Mistério e agora Horizonte?

O Mistério é uma reflexão sobre a dimensão humana perante o mistério que é a vida, este mistério insondável, mas ao mesmo tempo tão palpável, que nos toca de tantas formas tão diferentes e que tem a ver com esse assombro perante a criação, da qual fazemos parte. Por um lado, esse assombro pela nossa fragilidade, pela nossa pequenez e ao mesmo tempo pela nossa imensidão de termos uma capacidade criativa, realmente transformadora do mundo. Tem também a ver com a aceitação desse mistério nas nossas vidas, de termos a consciência plena de que nunca vamos conhecer tudo, nem de perto, nem de longe, e que a nossa passagem aqui é sempre misteriosa e será sempre misteriosa, o lugar donde vimos, o sentido de aqui estarmos. Por um lado, é misteriosa, por outro lado, vai-se revelando à medida que vamos vivendo e revela-se no contacto com o outro, no contacto com a natureza.
O Horizonte¹ tem a ver com o futuro, com o sonho, o horizonte enquanto linha que representa aquilo que nos move a caminhar, a estar permanentemente no caminho, que nos põe em contacto com o mundo, com o mundo palpável, aquilo que podemos tocar e que nos toca e que nos transforma e que nós podemos também transformar. O contacto connosco mesmo, com as nossas fragilidades, com as nossas dúvidas, com os obstáculos que vão surgindo no caminho. E também um observar, a contemplação, mais uma vez, da criação, da maravilha do mundo em que nós nascemos, e, por outro lado, um certo espanto, uma certa dificuldade em lidar, em nomear certos traços do caráter humano que fazem com que a vida não seja plena para todos.

Mas não achas que andamos distraídos e que há necessidade de algumas vozes que nos acordem. Achas que podes ser, em parte, essa voz?

Eu penso que o despertar está em cada um de nós. Há um tema nesse disco que se chama O vento e faço precisamente essa analogia, quando há muito vento, nós não conseguimos parar, nem conseguimos escutar outra coisa, eu faço a analogia entre o vento e o ruído em que vivemos, hoje em dia, porque há tantos meios de comunicação, tantas vozes, são tantas as coisas que são ditas, a velocidade a que se fala, a facilidade com que se comunica, mas ao mesmo tempo a superficialidade, a distração. As pessoas andam mais distraídas do que propriamente em contacto com o pensamento, com uma atenção para com o próximo, na sua grande maioria, claro. Nós estamos aqui e o mundo avança, porque existe o sonho e a vontade de fazer o melhor e há muita gente comprometida.

Hoje em dia, coloca-se a questão do papel da mulher na Igreja, com o Papa Francisco a nomear mulheres para cargos importantes na Cúria Romana. Como é que vês a forma como a igreja lida com esta questão da mulher?

Oratória Mariana com Teresa Salgueiro, inserida nos 25 anos da dedicação da igreja de S. Maximiliano Kolbe, Lisboa, 28 de abril de 2018. Foto MSA / Xan.
Oratória Mariana com Teresa Salgueiro, inserida nos 25 anos da dedicação da igreja de S. Maximiliano Kolbe, Lisboa, 28 de abril de 2018. Foto MSA / Xan.

É uma questão que eu me ponho muitas vezes, mas eu não tenho uma proximidade suficiente para poder ter uma postura crítica que eu sinta que tenho o direito de a ter… De qualquer forma, eu penso que há um grande caminho a percorrer… Não compreendo muito bem o porquê de um tão grande atraso nesta paridade entre o papel do homem e da mulher no seio da Igreja, na vivência da Igreja e naquilo até que pode ser o veicular da Fé e da Palavra, o testemunho, não compreendo o porquê. É uma questão profunda e eu sinto uma grande responsabilidade a falar, mas acho que há um grande caminho a percorrer e a Igreja só ganharia, como tudo na vida, não só a Igreja.
A vida só ganhará e muito quando realmente as mulheres tiverem um lugar e souberem também tê-lo, porque também há muitas mulheres que perpetuam, em termos culturais e da educação que vão recebendo… Enfim é um ciclo complicado. Mas, de facto, a partir do momento em que as mulheres passaram a ter uma forma de subsistência e passaram a não estar tão diretamente dependentes dos homens para a sua sobrevivência, começaram a poder ter uma voz e acho que isso é fundamental para que as mulheres possam ser consideradas seres plenos, na sua inteligência e no contributo, que é imenso, que podem dar à vida, bem como os homens.
Mas há uma falha, há de facto uma falha muito grande e o mundo estaria muito melhor se as mulheres tivessem um lugar mais pleno. O Papa Francisco sabe isso muito bem, e nada se faz sem controvérsia, mas ele é um homem muito corajoso que eu admiro muitíssimo…


1. O Horizonte foi galardoado com o prestigiado prémio José Afonso 2017, atribuído por unanimidade e aclamação.

 

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