Ars bene moriendi

No mês passado, o Papa Francisco visitou os participantes de um simpósio sobre a Vida Consagrada. Interveio de uma forma livre e espontânea, recorrendo a uma expressão latina para alertar os religiosos(as) sobre uma tentação que hoje ataca todos: a “Ars bene moriendi”, isto é, a “eutanásia espiritual” que atinge o coração do consagrado que não aguenta mais os problemas da vida, que não tem a coragem de seguir o Senhor, que não faz próprios os conselhos evangélicos e, portanto, fecha-se em si próprio numa atitude de sobrevivência e acaba por se anestesiar e morrer sem deixar fruto.

O Papa sugeriu, então, três palavras ou atitudes para contrariar esta tentação: oração, pobreza e paciência, que definiu como as colunas que sustentam a vida consagrada. A oração é “o ar que permite que o chamamento à vida consagrada continue vivo e sempre novo”; a pobreza é o meio para “manter a fecundidade na vida consagrada, pois, sem ela, caímos nos vícios do dinheiro, da vaidade e da soberba”; e, finalmente, a paciência, que é a atitude que começa pela tolerância e vai até ao sacrifício de si próprio.

Quando li o relato deste discurso do Papa, associei-o ao estilo de muitos sermões de Santo António que, a partir da Palavra de Deus, entrava na vida concreta das pessoas e despertava nelas o desejo de se converterem e de viverem conforme o espírito das bem-aventuranças. Santo António foi proclamado, pelo Papa Pio XII, “Doutor evangélico”, exatamente porque ele tinha o dom de desvendar as Escrituras e de infundir nos corações o fogo do Espírito do Senhor, que renova e dá a vida.

Sem a força desse Espírito, nós caímos na mundanidade e, consequentemente, na acédia e na morte. Desta forma, já não podemos realizar a nossa vocação cristã, que é sermos “um hino de louvor ao nosso Deus” (Ef 1, 12).
Santo António, quando não o quiseram escutar, foi ter com os “irmãos peixes” aos quais dirigiu um sermão que ficou famoso e passou à história. Também o grande Padre António Vieira aproveitou do “Sermão aos peixes”, para fustigar os vícios e incentivar o direito e a justiça. Não sei se é descabido associar a figura do Papa Francisco a estes dois “António”; uma coisa é certa: este Papa, tão singelo e próximo das pessoas, interpela e não nos deixa sossegados; mas, ao mesmo tempo, inspira confiança e ternura.

Quem procura a verdade, encontra o amor e, consequentemente, Deus, porque Deus é o Amor. E o amor é como um fogo: não é possível retê-lo, espalha-se e envolve tudo. Quem ama, nunca morre, porque tem em si a semente da imortalidade. Eis o verdadeiro milagre de Santo António: uma centelha de fogo que nos lança no grande fogo do Amor de Deus

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