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Ainda há heresias na Igreja?

Na recente Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate” (GE), sobre o dinamismo da santidade no mundo atual, o Papa Francisco fala de duas falsificações da santidade: o gnosticismo e o pelagianismo (cf GE 35).
Diante desta afirmação surge imediatamente a pergunta: fará sentido falar de heresias nos dias de hoje? Será que ainda há doutrinas heréticas? Quem serão os hereges de hoje?

Ainda para mais, o Papa fala de duas heresias que pensávamos pertencerem apenas aos livros de história. No entanto, ele diz que “são duas heresias que surgiram nos primeiros séculos do cristianismo, mas continuam a ser de alarmante atualidade” (GE 35). Será que o gnosticismo e o pelagianismo continuam atuais?

Gnosticismo

Comecemos por tentar perceber o que é o gnosticismo. A palavra ‘gnosticismo’ tem a sua raiz numa palavra grega (gnósis) que significa ‘conhecimento’ ou ‘investigação’. Então a gnose parece ser uma coisa boa, parece que introduz uma reflexão madura e profunda. O problema é que

O gnosticismo supõe uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos. (GE 36)

De facto,

Uma coisa é o uso saudável e humilde da razão para refletir sobre o ensinamento teológico e moral do Evangelho, outra é pretender reduzir o ensinamento de Jesus a uma lógica fria e dura que procura dominar tudo. (GE 39).

O mais interessante é que, como alerta o Papa,

Isto pode acontecer dentro da Igreja, tanto nos leigos das paróquias como naqueles que ensinam filosofia ou teologia em centros de formação. Com efeito, também é típico dos gnósticos crer que eles, com as suas explicações, podem tornar perfeitamente compreensível toda a fé e todo o Evangelho. Absolutizam as suas teorias e obrigam os outros a submeter-se aos raciocínios que eles usam.(GE 39)

“O gnosticismo, ‘por sua natureza, quer domesticar o mistério’, tanto o mistério de Deus e da sua graça, como o mistério da vida dos outros” (GE 40). Trata-se de tentar reduzir a vida e a própria fé a um conjunto de ‘afirmações’ e ‘verdades’ onde não há lugar a perguntas, a caminho, a dúvidas, a mistério… Tudo se explica, tudo ‘encaixa’ num qualquer esquema (filosófico ou teológico), tudo se resume a uma equação, tudo não passa de ‘matemática pura’.

Mas sem mistério ficamos mais pobres, mais incompletos, mais frágeis, mais ‘pequenos’, mais auto-referênciais. Aparentemente mais seguros, mas seguramente mais ‘arrogantes’ e mais distantes do evangelho e da vida de Jesus.

Pelagianismo

Entretanto, algumas pessoas deixaram de ‘adorar’ a inteligência e começaram a ‘adorar’ a vontade humana e o esforço pessoal. “Surgiram, assim, os pelagianos e os semipelagianos. Já não era a inteligência que ocupava o lugar do mistério e da graça, mas a vontade” (GE 48).

Esta perspetiva ganha o nome do monge ascético Pelágio (do final do séc IV e início do séc V) que defende que o homem é totalmente responsável pela sua própria salvação e, portanto, não necessita da graça divina.
“A Igreja ensinou repetidamente que não somos justificados pelas nossas obras ou pelos nossos esforços, mas pela graça do Senhor que toma a iniciativa” (GE 52). Claro que isso não serve de desculpa para não nos empenhamos ou não nos comprometermos com a sociedade ou para não sermos competentes.

Mas “se não reconhecemos a nossa realidade concreta e limitada, não poderemos ver os passos reais e possíveis que o Senhor nos pede em cada momento” (GE 50). Se não aceitarmos a nossa fragilidade e se não reconhecermos o nosso pecado corremos o risco de nos ‘desumanizarmos’ e de nos ‘empobrecermos’.

Muitas vezes, contra o impulso do Espírito, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa propriedade de poucos. Verifica-se isto quando alguns grupos cristãos dão excessiva importância à observância de certas normas próprias, costumes ou estilos (GE 58).

Tudo isto pode manifestar-se em

atitudes aparentemente diferentes entre si: a obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial. (GE 57)

Deste modo, podemos concluir que as heresias coabitam-nos, estão presentes na nossa vida e na vida das nossas comunidades, nas nossas orações e em muitos dos nossos textos. Às vezes de forma muito subtil e quase imperceptível.

Tantas vezes ficamos ‘presos’ a palavras e a teorias, a esquemas e a conceitos, a fórmulas e a pormenores. Tantas vezes ficamos ‘fechados’ em raciocínios que não deixam espaço ao mistério, ao transcendente e ao Espírito.

A nossa vida não é apenas uma questão de inteligência, ou de vontade própria, ou de mérito pessoal, ou de capacidade humanas… é tudo isso, mas sempre inspirados pela graça do Espírito e movidos pela força do alto. A graça de Deus é o ponto de partida.

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