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Um Deus plenamente humano

Quando crianças, nas aulas de catecismo aprendíamos que “Deus é o ser perfeitíssimo, criador e senhor do céu e da terra”. Na internet, encontramos: “Deus é espírito, uma pessoa sem corpo material, com todas as características de uma pessoa física, mas sem pecado”.

Trata-se de tentativas humanas de definir o que Deus é ou, melhor, quem Deus possa ser. Temos que aceitar, entretanto, que a realidade divina é algo que está acima da nossa capacidade de compreensão. Por isso, “puro espírito, perfeitíssimo, sem corpo material”; um deus que não suja a sua existência com a nossa materialidade e, portanto, um deus externo ao nosso mundo. Enquanto isso, nós, relegados a simples criaturas, nunca pertenceremos à família de Deus.

É um deus contraditório: omnipotente e omnisciente, mas que pouco faz para que este mundo, criação sua, seja uma casa acolhedora para as suas criaturas, cujas maldades tolera. Ao invés de ser o ideal último da existência, tornamo-lo um deus a quem recorrer para que resolva nossos probleminhas de saúde ou de dinheiro.
Há um outro caminho para encontrar Deus e viver a religião: Deus não uma crença a ser aceita, mas uma experiência a ser vivida.

Em Portugal, na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, celebra-se a festa do Corpo de Deus.

Pode um espírito perfeitíssimo ter um corpo?

Em todas as culturas apareceram imagens humanas para caracterizar Deus. É conhecido o fresco pintado por Michelangelo: um ancião com barba e cabelos brancos que transmite o sopro de vida a Adão. Voltaire ironizava: “Deus fez o homem a sua imagem e semelhança, e este pagou-lhe na mesma moeda”. Por acréscimo, foram atribuídas a Deus também algumas das piores características humanas, como a raiva e a vingança.

Para tirar a humanidade deste apuro e restabelecer a verdade a respeito do “Pai nosso” interveio o mesmo “puro espírito” na pessoa de Jesus Cristo “que  embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Filipenses 2:6-8).

Deus é bem diferente de como os homens pretenderam imaginá-lo: um deus que é também um ser humano e assume em si toda a humanidade. Donde, toda a verdadeira humanidade é, também, divina. Não é preciso ser crente para ver a profundidade desta “recriação” de deus, que é também uma valorização inimaginável para a nossa pobre humanidade. Trilhando este caminho que tem por meta a divindade, chegaremos à plenitude do humano.

Corpo de Deus: Festa da presença física de Deus

A Festa do “Corpo de Deus” é a forma “popular” e teologicamente correta para anunciar que o nosso Deus é “alguém” listado no rol dos humanos, Maria e José figuravam como seus pais nos registos do estado, morou durante vários anos em Nazaré, cidadezinha da terra que hoje chamamos de Médio Oriente. Sofreu as agruras normais da vida e foi vítima das perseguições dos poderosos religiosos e políticos. Fosse hoje, teria o NIF, trabalharia para se sustentar a si e ajudar os pais. Anunciaria que a verdadeira humanidade não se mede pelo tamanho da conta no banco, mas pelo coração. Pediria para sermos generosos com os outros como Deus, Pai de todos, é generoso conosco.

Ele é a encarnação de um deus tão “nosso” que, para confirmar que compartilhará sempre connosco a humanidade, escolheu o alimento mais corriqueiro e cotidiano, pão e vinho, tornando-os sinal de sua presença. E quem comer daquele pão e beber daquele vinho, que Ele oferece como seu corpo e sangue, terá de representá-lo diante de todos.

É como sucede com as mães. Dão a vida, não só na hora de conceber e dar à luz, mas transformam-se a si mesmas em alimento, deixam-se “sugar” para sustentar a vida que flui delas. Assim a Eucaristia, a Ceia do Senhor, alimenta os cristãos para que sejam a presença física do amor de Deus na vida, como Jesus de Nazaré que “Deus ungiu com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com ele” (Atos, 10, 38).

Celebrar a festa do Corpo de Deus é, também, um compromisso para a Igreja que é “o corpo de Cristo” (Efésios, 1, 22). São Paulo afirma com firmeza à comunidade da cidade de Corinto: “Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo” (1 Cor 12, 27).

É bom lembrar o que “o Rei” dirá no dia do juízo final: “Todas as vezes que fizestes isto – ou deixastes de fazer – a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes – ou deixastes de fazer.” (Mateus, 25, 40.45).

O teólogo J. M.Castillo lembra-nos que “a grande preocupação de Jesus não era se as pessoas pecavam mais ou menos, mas se as pessoas tinham fome ou estavam doentes”.

Qual é o pão nosso de cada dia?

Jesus ensinou-nos que antes de pedirmos o perdão pelas ofensas, devemos pedir ao Pai “o pão nosso de cada dia”. Trata-se do pão que encontramos sobre a mesa ao almoço ou do pão que Jesus Cristo nos oferece ao celebrarmos a “ceia”, na missa?

Talvez não haja diferença entre o pão que pedimos que não falte na nossa mesa (e em nenhuma outra) e o pão que alimenta a nossa fé. Humanidade e divindade, depois da Encarnação, estão indissoluvelmente imbricadas.

O caminho para a divindade é entrar na plenitude do humano e o caminho para criar a verdadeira humanidade é criar “comunhão”: missão para quem acredita em Deus e também para quem não acredita, mas tem fé na vida.

Talvez seja este o lembrete do feriado que nos proporciona a festa do “Corpo de Deus”.

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