Santos como nós

Todos nós somos chamados a ser santos. Contudo, isto parece estranho à sociedade de hoje e a muitos dos nossos cristãos.
O que significa ser santo? Os santos não são apenas aqueles que estão no altar? Como é que podemos ser santos, hoje? O que ganhamos com o facto de sermos santos?

O Papa Francisco publicou recentemente, a 19 de março de 2018, a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (GE) sobre o dinamismo da santidade no mundo atual.
Ainda faz sentido falar de santidade hoje?

Com tantos temas urgentes, não seria mais oportuno pensar noutros assuntos? Talvez, mas o Papa quis provocar os cristãos e sobretudo os jovens a pensar no sentido mais profundo da sua vida.

Claro que os santos são aqueles modelos de vida que a Igreja vai reconhecendo, vai canonizando e vai colocando nos ‘altares’. Somos uma Igreja cheia de bons ‘exemplos’, cheia de pessoas, homens e mulheres, jovens e crianças, que deram a vida e que procuraram concretizar o evangelho na sua vida.

Estes exemplos de vida e estes ‘testemunhos’ concretos ajudam-nos a perceber que a santidade é para todos − casados ou solteiros, padres ou freiras.

De facto,

Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele (GE 11).

Há santos para todos os ‘gostos’: temos um santo surfista − o Servo de Deus Guido Schäffer, do Brasil; um santo cigano − Zeferino Gimenez Malla, de Espanha; uma santa filósofa, professora e enfermeira − Edith Stein, uma judia morta nas câmaras de gás de Auschwitz; um casal − os pais da francesa Santa Teresa de Lisieux, Louis e Zelie Martin; uma escrava − Josefina Bakhita do Sudão; duas crianças − Jacinta e Francisco Marto… A que podíamos juntar muitos outros como Maria, Mateus, Pedro, Madalena… ou Agostinho, Hildegarda de Bingen, Tomás de Aquino… ou, ainda, Teresa de Calcutá e João Paulo II.

Falamos de santos do quotidiano, capazes de concretizar o evangelho no mundo de hoje. Falamos de santos como ‘nós’, que foram capazes de dar a vida, de revelar Cristo através dos seus gestos e das suas ações.

Precisamos de santos sem véu, nem batina

A este propósito, São João Paulo II terá escrito um texto verdadeiramente interessante:

Precisamos de Santos sem véu ou batina. Precisamos de Santos de calças jeans e ténis. Precisamos de Santos que vão ao cinema, ouvem música e passeiam com os amigos. (…) Precisamos de Santos que tenham tempo todo dia para rezar e que saibam namorar na pureza e na castidade ou que consagrem sua castidade. Precisamos de Santos modernos, Santos do século XXI com uma espiritualidade inserida em nosso tempo. Precisamos de Santos comprometidos com os pobres e as necessárias mudanças sociais. Precisamos de Santos que vivam no mundo, se santifiquem no mundo, que não tenham medo de viver no mundo. Precisamos de Santos que bebam Coca-Cola e comam hot-dog, que usem jeans, que sejam internautas (…). Precisamos de Santos que amem a Eucaristia e que não tenham vergonha de tomar um refrigerante ou comer pizza no fim-de-semana com os amigos.
Precisamos de Santos que gostem de cinema, de teatro, de música, de dança, de desporto. Precisamos de Santos sociáveis, abertos, normais, amigos, alegres, companheiros. Precisamos de Santos que estejam no mundo e saibam saborear as coisas puras e boas do mundo, mas que não sejam mundanos.

Neste sentido, o Papa Francisco, diz-nos:

Gosto de ver a santidade (…) nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. (…) Esta é muitas vezes a santidade ‘ao pé da porta’, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus (GE 14).

A santidade é para esta vida e não na outra

Efetivamente, com esta Exortação o Papa Francisco quer recordar que o Senhor chama à santidade cada um de nós: ‘sede santos, porque Eu sou santo’ (cf. GE 10). A santidade é para nós e não para os outros, nesta vida e não na outra, na minha circunstância e não quando tudo for perfeito.

Por isso, continua o Papa:

Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra (GE 14).

Explicitando em seguida:

És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais (GE 14).

Ser cristão é viver este desafio de santidade, é perceber que a santidade não é para alguns mas para todos, que não há desculpas, nem razões para não procurarmos ser santos. Na verdade, “para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra, sem a conceber como um caminho de santidade” (GE 19).

Mas os santos não são aqueles que ‘fazem tudo bem’?

O Papa responde:

Nem tudo o que um santo diz é plenamente fiel ao Evangelho, nem tudo o que faz é autêntico ou perfeito. O que devemos contemplar é o conjunto da sua vida, o seu caminho inteiro de santificação, aquela figura que reflete algo de Jesus Cristo e que sobressai quando se consegue compor o sentido da totalidade da sua pessoa (GE 22).

E esta perspetiva, continua o Papa,

é um vigoroso apelo para todos nós. Também tu precisas de conceber a totalidade da tua vida como uma missão. Tenta fazê-lo, escutando a Deus na oração e identificando os sinais que Ele te dá. Pede sempre, ao Espírito Santo, o que espera Jesus de ti em cada momento da tua vida e em cada opção que tenhas de tomar, para discernir o lugar que isso ocupa na tua missão. E permite-Lhe plasmar em ti aquele mistério pessoal que possa refletir Jesus Cristo no mundo de hoje (GE 23).

Mensageiro de Santo António
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