Jovens e… o Papa em Roma: o Sínodo “já mexe!

“Falar com coragem. Sem vergonha (…). Aqui a vergonha deixa-se fora da porta”.
Foi com estas palavras que o Papa Francisco saudou “todos os 15 340” jovens do mundo inteiro que, presencialmente (cerca de 300) ou através da internet, participaram na “Reunião pré-sinodal”, ocorrida entre 19 e 24 de março passado.

Uma vez mais, e em perfeita coerência com aquele que tem sido o “tom”, a “atitude”, o “método” e o “dinamismo” pastoral adotado no seu pontificado, o Papa Francisco demonstrou, “por palavras e por obras”, que o caminho sinodal não se pode fazer sem tornar consequente o protagonismo dos “sujeitos” nele invocados. Assim, se no “Documento preparatório” (já analisado neste espaço) foi amplamente sublinhada a necessidade da Igreja “escutar os jovens”, crentes e não crentes, uma vez que (também) através deles ela “poderá ouvir a voz do Senhor que ressoa inclusive nos dias de hoje”, o Papa dispôs-se efetivamente a ouvi-los, não só através dos questionários/inquéritos lançados, mas, igualmente, neste Encontro-reunião pré-sinodal no Pontifício Colégio Internacional Maria Mater Ecclesiae, em Roma.

No seu discurso de abertura, Francisco começou por elogiar alguns aspetos próprios da “irreverência” juvenil. Em primeiro lugar, saudou-lhes o apego pela verdade: os jovens “dizem a verdade, não se envergonham”, pois são dotados de “tanta força para dizer as coisas, para sentir as coisas” que, muitas vezes, a sua atitude contrasta fortemente com a dos adultos, que muito fácil e rapidamente se deixam vencer pela resignação: “O mundo é assim… que se arranjem”. No fundo, o seu convite-desafio é à coragem de “dizer tudo”, vencendo até o natural medo de errar.

Analisando aquela que é a abordagem comummente adotada quando nos referimos à “questão/realidade juvenil” e criticando até a falsa proximidade e sensibilidade por alguns invocada, o Papa deixou claro que esta não é de todo redutível a um substantivo coletivo onde tudo cabe e nada de particular se distingue: “a juventude não existe! Existem os jovens, histórias, rostos, olhares, ilusões”.

Mais do que de uma questão terminológica, este é um problema de perspetiva e da referente estratégia pastoral que urge transformar:

Há quem pense que seria mais fácil manter-vos ‘à distância de segurança’, para não se sentirem provocados por vós. Mas não é suficiente trocar alguma pequena mensagem ou partilhar fotografias simpáticas. Os jovens devem ser levados a sério! Parece-me que estamos circundados por uma cultura que, se por um lado idolatra a juventude procurando nunca a fazer passar, por outro impede que muitos jovens sejam protagonistas. É a filosofia da maquilhagem.

Evitando que aquela fosse uma reflexão “des-incarnada” e “anódina”, o Pontífice quis ter presentes os reais e sérios problemas com que os jovens de hoje se debatem (independentemente da existência ou não de uma afirmação e pertença religiosa − comunitária), entre os quais adquire especial relevo o da “marginalização da vida pública normal”, resultado da falta de oportunidades de realização pessoal e laboral. Sublinhando o “ciclo vicioso” que todos (re)conhecemos, o Papa questiona-se (e questiona-nos): “O que faz um jovem que não encontra trabalho? Adoece − a depressão − cai no desespero, cai nas dependências, suicida-se”… Por isso “devemos refletir”…

Chegados a este ponto, e quando porventura seria de esperar uma peroração mais profunda sobre este problema, suas causas, consequências e possíveis soluções, Francisco escolhe uma ”outra via”, verdadeiramente mais consentânea com os citados “método” e “dinamismo” que propõe e aplica: “Para esta reflexão, eu gostaria que fôsseis vós a dizer as causas, os porquês, e não digais: ‘Nem sequer eu sei bem porquê’. Como viveis vós este drama? Ajudar-nos-ia muito”. Com esta “opção/convite metodológico fundamental”, o Papa ilustra com clareza não só o caminho a seguir nesta reunião mas no próprio Sínodo a acontecer em outubro próximo: sendo para ele impossível que aconteça um “Sínodo sobre os jovens” sem que estes não tenham nele voz e vez, ativa e pró-ativa.

Esta Reunião pré-sinodal pretende ser sinal de algo grandioso: a vontade da Igreja de se colocar à escuta de todos os jovens, sem excluir nenhum. E isto não para fazer política. Não para uma artificial ‘jovem-filia’, não, mas porque precisamos de compreender melhor o que Deus e a história nos estão a pedir. Se vós faltardes, falta-nos uma parte do acesso a Deus.

O próximo Sínodo será também um apelo dirigido à Igreja, para que redescubra um renovado dinamismo juvenil, já que também na Igreja devemos aprender novas modalidades de presença e de proximidade; (…) precisamos de ousar veredas novas. (…) mesmo se isso comporta riscos. Um homem, uma mulher que não arrisca, não amadurece. Uma instituição que faz escolhas sem arriscar permanece criança, não cresce.

Estaremos dispostos a “crescer”, a “(…) sair da lógica do ‘sempre se fez assim’, para permanecer de maneira criativa no sulco da autêntica tradição cristã”? Valha-nos o Espírito Santo que nos “há-de guiar para a Verdade completa” (cfr. Jo 16, 13).

Mensageiro de Santo António
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