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Um mundo sem arredores

A globalização é hoje uma realidade que nos afeta a todos em todas as dimensões do nosso viver. Ela tem até alguns contornos bem paradoxais.
Por um lado, dá-se mais importância ao local, ao regional, ao ‘micro’ – veja-se a procura e o destaque que, de novo, se dá as tradições e costumes locais que, por todo o lado, parecem estar a ser recuperados.

Por outro, o global, o mundial, o ‘macro’ fazem sentir a sua presença em tudo, de uma maneira clara e evidente.

Se continuamos a utilizar expressões como nós e os outros, ou aqui e ali, ou ainda interesses particulares e interesses comuns, a verdade é que elas, por si só, já não são capazes de dar conta da complexidade da realidade que vivemos.

Um espaço público mundial

A este propósito, tem toda a razão Daniel Innerarity quando afirma que se pode explicar esta curiosa constelação com a metáfora de que o mundo ficou sem arredores, de tal modo que o resto do mundo acaba por ser uma ficção ou uma maneira de falar sem grande tradução real.

De facto, hoje em dia, não há nada que não faça, de alguma maneira, parte do nosso mundo comum (tomo esta ideia, que continuarei a explorar nas seguintes linhas, do texto “Un espacio público mundial”, publicado em Ética Aplicada. Comunicação Social, Edições 70, Lisboa 2017,103-128).

A desaparição dos ‘arredores’, na medida em que anula a distinção entre interior e exterior, traduz-se na perda de uma zona franca a partir da qual seja possível observar com tranquilidade e distância os naufrágios dos outros, como se eles não fossem também os nossos próprios naufrágios.

Na verdade, quando dispúnhamos de arredores, quase tudo se podia resolver com a operação de externalizar o problema, transpondo-o para uma margem, fora do nosso alcance e da nossa vista, num lugar longínquo e num tempo que já não é o nosso.

Se já não há arredores, para onde enviar os desperdícios e os sobrantes?

Os arredores funcionavam precisamente como sítios onde depositar os problemas não resolvidos, os desperdícios (cf. p. 113).

A este nível atrevo-me mesmo a dizer que ainda persiste, em muitos vontades, a ideia de fazer com que esses lugares não desapareçam, de maneira a que para lá se possam enviar todos os desperdícios humanos que mancham a nossa paisagem e teimam em lembrar-nos que não podemos continuar a viver assim.

Esta superação dos arredores talvez possa ser assumida, neste sentido, como uma das dinâmicas benéficas do momento globalizador e globalizado que estamos a viver, uma vez que já percebemos não ser possível resolver os problemas, que todos enfrentamos, passando-os a outras regiões, a outras gerações, a outros setores sociais. O fim dos arredores supõe a impossibilidade de expulsar o outro, qualquer que ela seja, para um mais além fora do nosso alcance (cf. p.114).

Esta realidade coloca-nos perante dois enormes desafios que podemos identificar a partir de duas constatações. A primeira revela-nos que este sentido de uma certa unidade do género humano foi adquirido essencialmente perante o negativo e como reação aos perigos decorrentes, por exemplo, das guerras e dos fluxos migratórios delas resultantes, das catástrofes ambientais e do limite em que estamos a colocar todo o nosso planeta, das crises financeiras e dos desequilíbrios que elas provocam a todos os níveis.

A segunda decorre da consciência de que estas circunstâncias supõem, simultaneamente, uma extraordinária ampliação daquilo que devemos considerar como espaço público e a dificuldade, daí decorrente, de reconfigurar esses espaços comuns (cf. p.115-116).

Apesar da imensidade da tarefa, a resposta urge e não pode demorar. Como responder a estes desafios? Como edificar e habitar num mundo sem arredores?

A utopia cristã: somos uma só família

Foto de Wieslawa Klemens, Polónia
Foto de Wieslawa Klemens, Polónia

E quando a pergunta é assim formulada, rapidamente me vem ao pensamento aquilo que é a proposta cristã, ou se quisermos, e sem medo de o dizer, aquilo que é a utopia cristã (utopia porque chamada a ser concretizada em todos os lugares e não apenas em um).

Neste momento, e utilizando palavras que têm um sabor contemporâneo, todos os cristãos estão desafiados a cuidar da casa comum, de modo a que ela possa ser um espaço habitado por todos, um espaço, onde não haja lugar nem para sobrantes, nem para descartados, um lugar sem arredores, porque todos formamos uma só família humana.

E porque todos formamos uma só família humana, o que nos move não pode ser só evitar os perigos, mas procurar positivamente o melhor para todos, ou se quisermos, para utilizar palavras destacadas de um modo especial pelo Concílio Vaticano II, procurar o bem comum, ou seja, o melhor bem para todos e cada um (cf. Gaudium et Spes nº 26).

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