Santa Macrina, a Jovem ou de Sócrates no feminino

Venerada na Igreja Católica e na Igreja Ortodoxa, Macrina é uma santa a recordar.

Nasceu em Cesareia, sita na atual Turquia, em 328; teve o seu dies natalis (1), em 379. Cresceu num lar cristão, no qual germinaram sementes da santidade. Neta de Santa Macrina, a Velha, filha de Basílio, o Velho e de Santa Emélia de Cesareia, foi a primogénita de dez crianças.

Destas, quatro foram santos: a própria Macrina, São Pedro de Sebaste e dois dos mais importantes Padres Capadócios – São Basílio, o Grande e São Gregório de Nissa.

Dizem que era muito bela e que teve muitos pretendentes. Esteve noiva aos doze anos; todavia, a morte do seu prometido fê-la optar pela vida religiosa. Após a morte do pai, mãe e filha escolheram viver na comunidade feminina monástica de Annesi (região do Ponto), por elas fundada; Pedro fundou, por seu lado, a comunidade masculina.

S. Gregório de Nissa, irmão de Santa Macrina
S. Gregório de Nissa, irmão de Santa Macrina

Macrina, a Jovem, beneficiou quer de excelente educação moral quer de ótima instrução intelectual e assumiu um papel fundamental no caminho espiritual de Basílio e de Gregório. Este último deixou-nos a Vida de Macrina, onde descreve, com carinho e admiração, uma vida que tinha por exemplar. Deixou-nos também o diálogo com a sua irmã no leito de morte.

Sobre a alma e a ressurreição foi escrito quando, no ano de 379, Gregório, ainda a recuperar da morte de Basílio, veio a encontrar a sua irmã gravemente doente.

Inspirado no Fédon, de Platão, no qual Sócrates, na iminência da sua execução, consola os discípulos, Gregório compõe este texto no qual Macrina, a sua Professora, anima e reconforta a si mesmo. Macrina é, para Gregório, no seio do Cristianismo, o que Sócrates foi para Platão. Este e São Gregório de Nissa deixaram obra; mas sem a obra de Macrina e de Sócrates, os seus caminhos teriam sido outros.

Vida de Macrina (excerto)

Quando os cuidados de criar uma família e as ansiedades de a educar e o seu estabelecimento na vida chegaram ao fim, e a propriedade – uma causa frequente de mundanidade – foi, na sua maioria, dividida entre os filhos, então a vida da virgem [Macrina] tornou-se, como eu disse atrás, num guia para a sua mãe, levando-a a esse estilo de vida filosófico e espiritual. Desabituando-a de todos os luxos a que estava acostumada, Macrina conduziu-a a adotar seu próprio padrão de humildade. Fê-la viver em pé de igualdade com as servas, de modo a partilhar com estas a mesma comida, o mesmo tipo de cama e tudo o que é necessário para a vida, sem qualquer atenção a diferenças de classe. Assim era o seu modo de vida, tão grande a altura de sua filosofia e tão sagrada a sua conduta dia e noite, de tal forma que torna inadequada a descrição verbal.

Sobre a alma e a ressurreição (excerto)

Também o seguinte exemplo, continuou a Professora, pode ser acrescentado aos outros que já foram dados para mostrar que a alma não precisa de muito ensino para distinguir o seu próprio corpo de outro entre os átomos. Imagina um oleiro com uma quantidade de argila; e que a reserva é grande; e que parte dela já foi moldada para formar peças de louça acabadas, enquanto o resto ainda aguarda para ser moldado; e supõe que as peças de louça não têm todas uma forma semelhante, mas que uma é moldada para ser uma jarra, por exemplo, e outra um jarro de vinho, outra um prato, outra uma chávena ou qualquer outro recipiente útil; e, além disso, que as peças não pertencem todas a um único proprietário, mas imaginemos que cada uma tem um proprietário diferente. Enquanto tais peças de louça estão intactas, são, naturalmente, reconhecíveis pelos seus proprietários, mas também o serão ainda que partidas em pedaços; pois dessas peças cada um saberá, por exemplo, que fragmento pertence a uma jarra e a uma chávena. E se tais fragmentos forem mergulhados novamente na argila não trabalhada, o discernimento entre o que já foi trabalhado e essa argila ainda será mais exato.


(1) Dies natalis – à letra “dia natal”, ou seja, dia da morte em que se nasce para a vida eterna… Os santos são comemorados no seu dies natalis, no dia da sua morte. A excepção é São João Batista, comemorado no dia do seu nascimento.

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