Entrevista com a Irmã Arta Lekaj

Irmã Arta conte-me a sua experiência pessoal. Como foi nascer e viver os primeiros anos na Albânia?

Irmã Arta Lekaj
Irmã Arta Lekaj

Chamo-me Arta Lekaj. Nasci em Gri, Albânia em 1981. O meu pai chama-se Mark e minha mãe Zoje. Tenho duas irmãs, a Elizabeta, um ano mais velha, e a Lina, a mais nova. Vivíamos numa zona onde a maioria era muçulmana.
Os nossos pais eram e são de tradição católica, mas nasceram em pleno comunismo e num país declarado “ateu” que perseguiu ferozmente as religiões, principalmente a religião cristã. A minha avó ensinou-nos a oração do Credo, do Pai Nosso e poemas catequéticos (eram belos e profundos, eram de amor e de temor) que recitava com muita alegria e alegrava-se muito quando nós os recitávamos.
Na escola ouvíamos que “deus não existe” Não conhecia qualquer objeto religioso. Na escola ouvíamos que “deus não existe”, em casa que Deus existe e era Aquele que nos tinha criado, que nos tinha feito cristãos pelo batismo, nos protegia, nos fazia justiça, nos curava…
A minha mãe nunca recitava poemas, mas tinha uma forma peculiar de falar tu a Tu com Deus Omnipotente. Dizia: Deus caminha ao nosso lado por isso não temas. Agradecia muito a Deus no final de uma viagem ou de uma graça recebida. Como as mulheres na Bíblia isto também influenciou a minha maneira de me relacionar com Deus.

Com as mudanças políticas na Albânia o que mudou na sua vida?

No dia em que fiz 10 anos, caiu o comunismo (derrubaram a estátua do Enver Hoxha). Aos 15 anos, fui para Tirana, para casa do meu tio e comecei a trabalhar 9 horas por dia numa fábrica de sapatos. Em 1999, construiu-se uma igreja perto da casa do meu tio e as Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena vieram viver naquele bairro pobre de Tirana. Nesta altura, a Lina também veio para Tirana trabalhar comigo na mesma fábrica. Um dia disse a chorar: nasce e põe-se o sol e nós nem olhamos para ele um segundo.
Queria ter uma vida com sentido e assim decidimos ir à igreja. A catequese era dada em três línguas: português (pela Irmã Izide), italiano e albanês. A catequese era transmitida com alegria e contagiava-nos. Terminava com um trabalho para casa para vivenciar o Evangelho.
Na fábrica começamos a partilhar com as amigas essa vivência e era uma experiência muito rica. Foi assim que aos poucos Deus trabalhou o meu coração e comecei a desejar ser como as Irmãs mesmo que me parecesse um sonho absolutamente irrealizável. Quando os tios se juntaram para decidir sobre o casamento da Lina, aproveitei para dizer a todos que sentia que Deus me chamava para ser Irmã. Este dia foi marcante para mim. Eu ia percebendo e acolhendo os sinais umas vezes de forma confusa e outras vezes com clareza.

Quando veio para Portugal como foi a integração num país totalmente desconhecido?

Em 2002, pela graça de Deus, dei a minha resposta e entreguei-me totalmente a Deus na Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena em Tirana e, em 2004, vim para Portugal, para Leiria. Em 2007, vim para Lisboa onde fiz o noviciado e, em Janeiro de 2009, professei e voltei para a Albânia. Quando ia para o trabalho de autocarro (trabalhava num infantário), ia vestida com o hábito e faziam-me muitas perguntas sobre a fé, Deus e a Igreja.
Não me sentia ainda preparada para responder a essas perguntas e por isso senti o apelo de ter formação teológica.
Prestes a terminar o Mestrado Integrado de Teologia que balanço faz destes anos em Portugal?
Agora com humildade posso dizer que recebi boas bases e enriqueci a minha fé para poder ser mais proveitosa na evangelização. Claro que a evangelização é obra do Espírito Santo, mas também a teologia foi dom e obra d´Ele.

O que tem a dizer sobre as mulheres e o seu contributo para a vida da Igreja?

Penso que nós mulheres devemos abrir o coração a Deus e seguir a Sua voz. Ele criou-nos e tem um projeto para cada uma. Umas casadas, outras solteiras, outras consagradas. Com estados de vida diferentes, mas que se complementam, nenhuma é mais, nem menos que a outra.
“O Espírito Santo sopra onde quer e quando quer” e se é Ele que está a pedir uma mudança do papel da mulher na Igreja, ninguém O poderá impedir. Fará como já fez com algumas mulheres. Recordo apenas duas que fazem parte da minha família religiosa e que tiveram um papel fundamental na Igreja:

Santa Catarina de Sena (1347-1380) foi a mulher que mais se destacou na reconciliação e renovação da Igreja do seu tempo que aparecia ao mundo com “uma face leprosa”. Pela sua ação e intervenção, entregou-se totalmente à missão de conversão do Papado e à unificação da Igreja.
Escreveu numerosas cartas e o Diálogo onde aponta as linhas da paz, da justiça, da conversão. Em 1970, Paulo VI deu-lhe o título de Doutora da Igreja.

Teresa de Saldanha (Lisboa, 1837-1916), numa época em que a Igreja se encontrava fragilizada e desmotivada na sua missão evangelizadora, empenhou-se em salvar os filhos do povo, evangelizando, educando, promovendo, sobretudo as mulheres que nessa época não tinham acesso à escolaridade. Para continuar a sua obra, fundou duas instituições: A Associação Protetora de Meninas Pobres e a Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena.

Qual a sua percepção quanto ao papel da mulher na Igreja, no futuro?

Sou otimista, porque: “Se o seu empreendimento é dos homens, esta obra acabará por si própria; mas, se vem de Deus, não conseguireis destruí-la, sem correrdes o risco de entrardes em guerra contra Deus” (Act 5, 38-39).
Há proibições do papel da mulher na Igreja que eu não entendo, como não entendo algumas proibições do comunismo, mas sei que Deus vencerá e que a vontade d´Ele se irá cumprir.
Enquanto não temos o palco que se espera, aproveitemos para trabalhar nos bastidores, cujo trabalho é tão importante, quanto o trabalho do palco.

Mensageiro de Santo António
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