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Agradecer todos os dias

O ser humano é, por natureza, insatisfeito. Thomas Hobbes afirmava, que a felicidade consistiria numa sucessão contínua, de desejo em desejo, de (in)satisfação em (in)satisfação, já que a estabilidade preconizada pela filosofia anterior lhe parecia somente um sonho ilusório.

Já no século XX, o psicanalista, sociólogo e filósofo Erich Fromm constatava que as ideias de Hobbes e de outros pensadores similares, anteriormente sustentadas em círculos restritos, mas não defendidas no espaço público, se haviam tornado socialmente aceitáveis. Alertava, em consequência, para o perigo que tal doutrina constituía para o equilíbrio psicológico do ser humano.

Identificando estritamente a felicidade com o bem-estar e fazendo, por outra parte, depender tal felicidade do consumo dos bens desejados, a máquina económica contribuiria para o adoecimento da sociedade.

Com efeito, colocando a felicidade na dependência da fruição de bens adquiridos, os quais são sempre efémeros, gerar-se-ia na pessoa um estado de ansiedade de contornos patológicos crescentes.

Advertia também Erich Fromm que o consumismo perpetuaria em nós um comportamento infantil, na medida em que o consumista se relaciona com o mundo de modo autocentrado e procurando possuí-lo.

O que penso pode não ser partilhado por todos – cada qual tem o seu ponto de vista. Parece-me, todavia, que mesmo pessoas que têm uma prática religiosa assídua e sincera caem, sem se darem conta, neste mesmo ardil na sua relação com Deus.

Podem amá-lo com sinceridade mas, no momento da prece solitária, sacam de uma lista de pedidos como se de uma lista de compras se tratasse.

Pedidos sinceros, feitos com boa intenção – mas nem por isso menos pedidos. “Meu Deus, prometo X se me deres Y”. Emprego para um familiar, saúde para outro, casa para ainda outro, namorado ou namorada, marido ou esposa, filhos, netos… A lista de pedidos bem-intencionados não tem fim – como não tem fim uma vontade verdadeiramente bem intencionada.

Tal pessoa parte, no entanto, de um pressuposto improvável: o de que sabe o que é melhor para si e para os outros. Naturalmente, pessoa alguma no seu perfeito juízo quer sofrer – o desejo de sofrimento é uma doença psicológica com nome: masoquismo. Jesus Cristo não padecia dela; não ansiou pela cruz. Pelo contrário, o Evangelho diz-nos ter desejado que Pai a afastasse dele, mas confiou-se à Sua vontade.

A oração reta

São Tomás de Aquino, no seu Comentário ao Pai Nosso, enumera os muitos benefícios da oração reta. Alerta para a dificuldade que se cria quando o crente se fia no seu próprio discernimento a respeito do que é melhor para si mesmo. Seja feita a Vossa vontade, explica o Angélico, supõe a cooperação do ser humano com a graça de Deus, a quem se abre como o paciente que confia no médico:

Quando dizemos a Deus: Seja feita a Vossa vontade, é como se fôssemos doentes que aceitam o remédio amargo, prescrito pelo médico. O doente não quer tal remédio, mas aceita a vontade do médico. Em contrário, seguindo só a sua vontade, seria um insensato. Da mesma maneira, não devemos pedir a Deus nada além do Seu querer, isto é, a realização de Sua vontade em nós.

Para São Tomás, Deus é como um médico que distribui remédios, amargos e doces, de acordo com a enfermidade do paciente. Estar disponível para cumprir a vontade de Deus é mostrarmo-nos cooperantes para construir o nosso caminho, lendo as linhas do projeto desenhado para o nosso crescimento.

Deste modo, a oração de listas de pedidos bem-intencionados, seja para nós seja para aqueles que amamos, pode até ser contraproducente, pois assume que sabemos mais acerca dos caminhos de e para Deus do que efetivamente sabemos. Desejar o bem é sempre bom; desejar cooperar bem nos caminhos do Bem é ainda melhor.

Orar, mais do que pedir, é agradecer tudo quanto nos foi e é dado: o nosso ser, a nossa vida, este dia em que, aderindo a Cristo, podemos fazer mais e melhor.

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