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Teoria do absoluto

Albert Einstein (1879-1955) sintetizou a sua teoria da relatividade numa equação materialmente bela: E=mc2. Lê-se (fui perguntar): a energia é igual à massa vezes a velocidade da luz ao quadrado (!). Perante isto, os leigos na matéria – como eu – sentem-se paradoxalmente identificados com o físico: cabelos em pé e língua de fora.

Invoco o célebre gesto captado pelo fotógrafo Arthur Sasse no dia 14 de março de 1951, no final da festa do 72.º aniversário de Einstein.

Einstein com a língua de fora - foto de Arthur Sasse no dia 14 de março de 1951, no final da festa do 72.º aniversário de Einstein
Einstein com a língua de fora – foto de Arthur Sasse no dia 14 de março de 1951, no final da festa do 72.º aniversário de Einstein

Se virmos as várias fotografias de Einstein disponíveis em páginas da Internet, observamos que o Nobel da física (1921) não era de sorriso difícil.

Porém, este gesto extravagante, de olhos bem dirigidos para a câmara e cabelos em desalinho, tornou-se num ícone da cultura popular do século XX ocidental (presente em t-shirts, posters, canecas, quadros, e um etecetera de objetos e manipulações tão grande como a imaginação) e a ele tornou-o no epítome do “cientista maluco”.

A língua de fora de Einstein subtraiu-o do mundo sério, complexo, rígido, normativo e cinzento das ciências exatas (simultaneamente abstratas) e relocou-o no mundo não menos sério ou complexo, mas certamente mais flexível, extravagante e colorido das ciências humanas. Sobretudo, colocou-o no centro dos nossos dias, como um de nós, ainda que essa identificação seja só à superfície visível da aparente proximidade entre nós e ele: cabelos em pé, língua de fora, em “modo-gozo”, “modo-maluco”, ou “modo-surpresa”.

Física, poesia, narrativa ou drama?

A teoria da relatividade é ao mesmo tempo física transcendente (aquela que nós, leigos, não entendemos) e poesia (aquela que a todos, leigos ou não, pode tocar). Sim, mesmo, poesia. E também narrativa e drama.
A teoria da relatividade é assunto para cientistas e este século-milénio assistiu já a importantes momentos sobre o tema, desde logo com o primeiro registo sonoro das ondas gravitacionais em 2015, propostas por Einstein (apenas) em teoria, cem anos antes. É também assunto de todos os que repetimos, como se se tratasse de um adágio popular, o verso de António Gedeão/Rómulo de Carvalho, o poeta/físico: “o sonho comanda a vida”.

Não há ciência, sem sonho

Como dínamo vital, não há ciência sem sonho. Essa ciência que é poesia, narrativa e drama, tenta explicar o mundo através de hipóteses que são tão belas quanto insanas, tão concretas como irreais: linhas imaginárias de espaço-tempo que constroem um plano dinâmico em que a vida acontece. São estas duas dimensões, o espaço e o tempo, que se relacionam entre si num único conceito, mas que não é raso, nem é estático.

Para a maioria de nós, as ciências como a física, a química ou a matemática, são exatas numa medida de espanto que não alcançamos sem ajuda. Com ajuda, podemos chegar a entender a teoria sobre o universo que o pensamento abstrato e a investigação aplicada têm construído, mas entender a teoria não tem implicações na nossa vida. A relatividade da teoria de Einstein joga com dois conceitos numa dimensão abstrata que, embora bela e pura, não nos serve. Todavia, no nosso quotidiano, há uma teoria da relatividade que é mais comum e mais concreta.

Uma harmonia lógica, bela e pura

Tudo se relaciona e tudo é relativo, isto é, comparamos, contrastamos, pesamos, juntamos e separamos as experiências de dor e de alegria, as obrigações e as paixões, as seguranças e as surpresas, as muitas e variadas dimensões do nosso dia-a-dia. Encontrar para os excessos e para as medidas, para as dúvidas e as certezas, as angústias e os júbilos, para o bulício e para o silêncio, uma harmonia lógica, bela e pura semelhante à do universo, é o meu signo diário (descontextualizo palavras do poeta Fernando Assis Pacheco).

Um dos haiku (1) de José Tolentino Mendonça (A papoila e o monge, Assírio & Alvim, 2013) reza (e reza) assim:

Tudo te pareça igual
a noite e o dia, a alegria e a dor
o tempo e o que está para lá do tempo

É tudo igual, não por uma osmose que uniformiza e anula, mas tudo igual numa mistura de aqui e de infinito, de presente e de eterno; a súmula perfeita (mas não necessariamente tranquila) de desejo e de certeza de Deus, deixada em verso por Ruy Belo: “somos seres olhados”.

Esta certeza é a nossa teoria do absoluto.
O resto, o resto é relativo.


Teoria da Presença de Deus

Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto
fora do dia-a-dia ou não seguirem
a marca deixada pelas rodas dos carros
ao longo da vereda marginada de choupos
na manhã inocente ou na complexa tarde
repetiremos para nós próprios
que somos seres olhados

E haverá nos gestos que nos representam
a unidade de uma nota de violoncelo
E onde quer que estejamos será sempre um terraço
a meia altura
com os ao longe por muito tempo estudados
perfis do monte mário ou de qualquer outro monte
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida

Ruy Belo

http://ruybelo.blogspot.pt/2012/03/teoria-da-presenca-de-deus.html

(1) Nota da redação:
Haiku é uma forma curta de poesia japonesa. https://pt.wikipedia.org/wiki/Haiku

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