Jovens e… Quaresma: um (sempre novo) caminho pascal

Um dos riscos inerentes à assunção de uma qualquer atividade como fazendo parte da nossa “rotina” é o de permitirmos que a mesma se esvazie do sentido inicial e fundante que nos levou a fazê-la/vivê-la. E o mesmo se poderá dizer da vivência dos tempos litúrgicos, mesmo os mais “fortes”, como o da Quaresma em que nos inscrevemos.

Por isso, o pior que nos pode acontecer, pessoal e comunitariamente, neste “tempo favorável” de conversão em ordem a uma vivência mais plena da Páscoa (cfr. Constituição Dogmática Sacrossantum Concilium, 109) talvez seja permitirmos que a pluralidade, profundidade e beleza dos sinais (exteriores) e atitudes (interiores) com que a Liturgia deste Tempo nos convida a iluminar as nossas horas e guiar as nossas rotinas seja reduzida a uma mera repetição de práticas, ritos e “tradições” que, “dizendo-nos pouco”, muito menos (nos) significam e mesmo nada objetivam a necessária coerência entre lex credendi, lex orandi e lex vivendi que nos deveria de ser característica.

Todos sabemos que a fé cristã, embora assente numa resposta pessoalíssima e interior diante do projeto-convite que Jesus Cristo nos coloca, não é algo redutível ao espaço circunscrito da nossa interioridade. É em conformidade com esta radical dimensão comunitária-pública do nosso existir cristão que o número 110 do mesmo documento do último Concílio exorta explicitamente a que “A penitência quaresmal deve ser também externa e social, que não só interna e individual“.

Ora, tal dimensão comunitária da fé há de transparecer também e necessariamente nas formas como cristãmente vivemos e “damos cor” ao(s) tempo(s), sobretudo o(s) de particular densidade… Assim, uma salutar e coerente com-vivência (batismal-penitencial) da Quaresma exige o esforço de todos (enquanto Assembleia – ekklesia – celebrante) a uma constante atualização, criativa e re-criadora do modo de dizermos, de propormos, de celebrarmos e de vivermos este tempo de “revisão de vida”, de renovada consciência da “nossa maneira de pensar e agir” (Rm 12,2).

E que tem isto a ver com os jovens?

Porque são precisamente eles quem, aqui e ali, começam a ousar pedir a quem os esteja disposto a ouvir para que “Quaresma” não seja mais um sinónimo de tristeza, trevas ou pessimismo. Digamos que, no fundo (e porventura sem disso terem total consciência), eles estão a propor a toda a comunidade crente-orante-vivente uma “forma juvenil” de “dar cor” a este tempo, forma que nos é apresentada como testemunho e apelo: a entendermos e assumirmos o tempo quaresmal como um tempo de conversão, sim, mas no sentido da purificação batismal e não de “penitencialismos vazios e inconsequentes”; a vermos nela um exercício de memória e reflexão, iluminada pela Palavra, dos (também nossos) “40 dias de deserto”, passados ou presentes… mas sobretudo uma travessia que fazemos, em comunidade (e não sozinhos/isolados, portanto…) e de olhar sempre fixo no horizonte de um futuro aberto porque grávido de esperança, um futuro que nos é oferecido pelo mesmo Deus que nos acompanha, guia, alimenta e não nos abandona.

Mas não nos iludamos: dar-lhes ouvidos, perceber o que nos pedem, aceitar “sair do sofá” do comodismo do “sempre assim se fez” não é mais nem menos do que deixarmo-nos interpelar também por aquilo que o Caminho Sinodal em curso nos propõe: “Acompanhar os jovens exige sair dos próprios esquemas pré-fabricados, encontrando-os lá onde eles estão, adaptando-se aos seus tempos e aos seus ritmos; significa também levá-los a sério na dificuldade que têm de decifrar a realidade em que vivem e de transformar um anúncio recebido em gestos e palavras, no esforço quotidiano de construir a própria história…” (Cap. 3 do Documento Preparatório dos Sínodo dos Bispos 2018).

Neste sentido, não será abusivo considerar o apelo do Papa Francisco na sua Mensagem para a Quaresma deste ano como um sublinhado “vocacional” da própria vivência quaresmal: na sua constante interpelação a atravessarmos juntos o “frio” deste tempo experimentando já o “ardor” da Páscoa, o Pontífice aponta-nos que é por aqui que perpassa também o discernimento da nossa própria vocação. Porque, em suma, só assumindo aquela que é nossa “condição existencial”, uma condição que é de tensão − temporal, permanente e dinâmica − entre o “já” e o ”ainda não” realizado/cumprido da nossa própria salvação, é que Deus nos há de revelar o que pretende de nós, quer dizer, a nossa mais radical e transversal vocação: à alegria, à felicidade, à Páscoa da “vida plena” da santidade (ver o Cap. 3 do Documento Preparatório).

Assim se perceberá melhor como este tempo é, simultaneamente, de “conversão” e de “salvação”: é con-vertendo o nosso olhar e atitude diante de Deus-Jesus-Espírito, diante do mundo, diante de nós mesmos e diante dos nossos próximos que paulatinamente nos faremos conformes com a Sua vontade. Talvez assim a Quaresma volte a ser “caminho pascal”.

Mensageiro de Santo António
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