Focos de conversão ecológica ao serviço de uma ecologia integral

Muitas coisas devem reajustar o próprio rumo, mas antes de tudo é a Humanidade que precisa de mudar.

Laudato Si’, n. 202

Em Junho de 2015, através da carta encíclica Laudato Si’ Sobre o cuidado da casa comum, o papa Francisco dirigiu um veemente apelo a crentes e não-crentes acerca da urgência de cuidar bem do Planeta e da Humanidade que nele habita, com vista a uma ecologia integral.

O apelo do Papa nasce da escuta do grito da Terra: nossa irmã, porque com ela partilhamos a existência; e nossa mãe, porque ela nos acolhe e cuida, proporcionando-nos o alimento de que carecemos, o ar que respiramos, a energia com que vivemos…

Estamos nós abertos a escutar este grito, a debruçar-nos sobre os males que ameaçam o presente e o futuro da nossa casa comum?

Não podemos ignorar

Hoje, não podemos ignorar os males que afetam severamente a vida do Planeta e o risco de sobrevivência que ameaça a própria Humanidade, tantas são as suas manifestações: poluição do ar, dos rios e dos mares; alterações climáticas; fenómenos de seca severa; escassez de água potável; perda da biodiversidade; sem esquecer a deterioração da vida humana e a degradação social, visível na persistência de bolsas de pobreza e crescente desigualdade, em vastas regiões do Mundo.

Ainda recentemente um grupo de 1400 cientistas lançaram um alerta à Humanidade, demonstrando que é urgente agir para travar o caminho de auto-destruição que estamos trilhando com uma aceleração vertiginosa. Se esta se mantiver, no espaço de duas ou três gerações, é sua convicção que a Humanidade enfrentará uma crise sem precedentes, incluindo o risco de extinção da própria espécie.

No cerne da crise ecológica, existe uma crise antropológica

Manuela Silva, economista, coordenadora da Rede "Cuidar da Casa Comum", troca impressões com Frei Paulo Fappani
Manuela Silva, economista, coordenadora da Rede “Cuidar da Casa Comum”, troca impressões com Frei Paulo Fappani

Na encíclica Laudato Si’, o papa Francisco corrobora os riscos destas diferentes ameaças. Refere-se não só à degradação do ambiente físico, como também à vida humana, insistindo que tudo está interligado e salientando que, no cerne da crise ecológica, existe uma crise antropológica. Afirma o papa Francisco:

Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza.

Diante de problemática tão vasta, podemos cair na tentação de pensar que nada está ao nosso alcance para evitar um cenário de catástrofe e, em atitude de fatalismo e resignação, deixarmo-nos alienar pelas miragens do lema “gozar o máximo aqui e já”.

Nada mais contrário à fé num Deus criador e providente e ao evangelho de Jesus que dá testemunho, por palavras e obras, incluindo o sacrifício da própria vida, que Deus é Pai e ama todas as suas criaturas.

À tentação da indiferença, da desistência, do desânimo, os cristãos devem contrapor o assumir da sua responsabilidade como seres inteligentes, dotados de consciência e de liberdade, com capacidade de influenciar o desenrolar dos acontecimentos e de fazer escolhas.

Conversão ecológica

Para bem cuidarmos da casa comum, precisamos de encetar uma conversão ecológica que implica um novo olhar acerca da natureza e do lugar que nela ocupa o ser humano, bem como novas atitudes, comportamentos e opções relativamente ao uso que fazemos dos bens materiais, a centralidade que damos à salvaguarda do bem comum, o modo como produzimos e repartimos os bens produzidos, as tecnologias que empregamos, os estilos de vida que adotamos e os seus impactos na qualidade da vida, tendo sempre como referente a sustentabilidade do ecossistema no presente e no futuro.

Cuidar da Casa Comum

Cuidar da Casa ComumA Igreja ao serviço da Ecologia Integral http://casacomum.pt/

Esta rede propõe-se criar, no seio da Igreja, o desafio de uma verdadeira conversão ecológica que se traduza no aprofundamento da teologia da Criação e em suscitar novos modos de pensar a relação do ser humano com o Planeta, novos estilos de vida, solidariedade com os excluídos e responsabilização pelo futuro comum, a nível individual, familiar e comunitário.

Entre outras iniciativas, a Rede promove a criação de focos de conversão ecológica

Os “focos” têm por missão escutar o grito da nossa “Casa comum” contra o mal que lhe provocamos, identificar, na vida quotidiana, o uso irresponsável dos bens da Terra, criar no seio das respectivas comunidades pontes de diálogo com vista à construção de uma ecologia integral, tanto no plano dos comportamentos individuais como nas opções e práticas das comunidades da sua área de influência.

Os focos respondem a este desafio:

Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa.

Laudato Si’,n.217 n

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