Três Cartazes à Beira da Estrada

Acção. Reacção. Redenção: o Longo Caminho do Perdão.

“Hate cannot drive out out hate; only love can do that” (Luther King)

“Quando decidi que iria ser a dor de uma mãe, a história quase se escreveu sozinha”, disse Martin McDonagh, o realizador deste filme tão belo quanto violento. Mas garanto, desde já, que nos faz bem ver esta história: porque nos ajuda a meditar, mais uma vez, no longo, inesperado e talvez surpreendente caminho que o perdão pode percorrer no nosso coração, para sermos capazes de perdoar-nos a nós próprios e perdoar aos outros.

Entre outras personagens mais ou menos secundárias, há uma mãe – Mildred – atormentada pela dor de ter perdido uma filha – Ângela – queimada e violada enquanto ardia, e que nunca se perdoou pelas últimas palavras que trocou, no meio de uma discussão, antes de tudo acontecer. Um polícia – Dixon – racista, alcoólico, homofóbico, uma verdadeira ‘criança’ a viver ainda na casa da casa da mãe, infantilizado, mas à procura de uma redenção, que ele ‘esconde’ naquela violência desmedida e injustificável. E o xerife Willoughby, a quem cabe investigar o crime, acontecido há sete meses, e fazer justiça; um homem bom que também está a travar a sua luta contra a morte.

Na sua dor incontrolada, e mesmo na sua sede de vingança, aquela mãe, aluga três cartazes publicitários, na beira de uma estrada onde quase não passa ninguém, mas no lugar onde tudo aconteceu, para denunciar a demora da justiça e acusar o xerife como principal responsável. Este é o ponto de partida que vai desencadear uma série de actos de violência e ódio, e pôr a cidade quase toda contra ela.

Acontece que o xerife tem um cancro (Mildred sabe mas é incapaz de compaixão, tamanha é a sua dor) e vai suicidar-se por causa dessa doença incurável, de uma maneira absolutamente pensada e tranquila, deixando algumas cartas. E este, por estranho que possa parecer – até porque fez aumentar o ódio contra Mildred – é o acontecimento que vai obrigar a mudar quase tudo e quase todos.

Nas cartas que deixou, perfeitamente endereçadas, o xerife confessa a sua impotência para resolver o caso e até paga mais um mês de publicidade a Mildred; e mostra a sua bondade, dizendo a Dixon que se fosse capaz de amar tudo seria diferente e melhor. E a verdade é que Dixon vai ao ponto de ‘sacrificar-se’ para ajudar a resolver o crime.

Uma noite, quando ele está no bar, já depois de Mildred ter incendiado a esquadra da polícia e ele quase ter morrido queimado lá dentro, ouve a conversa de um homem que se vangloria de ter cometido um crime, em tudo semelhante ao que tinha ocorrido com a filha de Mildred, finge-se de bêbado para provocar o outro e conseguir arrancar um bocado de pele que permita a identificação. O resultado não é aquele que ele esperava, mas tudo aponta para que tenha sido ele a cometer o crime, mas seja protegido por alguma razão. Por isso, Dixon oferece-se para ir com Mildred à terra onde ele vive e fazerem justiça pelas próprias mãos.

Não sabemos o que acontecerá. O filme acaba durante a viagem, com os dois visivelmente interiormente mais apaziguados, mas sem terem a certeza do que vão fazer, a dizer que ‘têm o dia todo para pensar nisso’.

Trata-se de um filme complexo e ‘pesado’, muito simbólico, e por isso capaz de sugerir a complexidade e ambiguidade que habita o coração daquelas personagens tão densas e atormentadas (impossível esquecer o rosto de Frances McDormand no papel da mãe, ainda que a personagem quase principal possa ser Woody Harrelson, no papel do xerife), mas que também nos faz rir no meio de tanta raiva e crueldade, aqui e ali pontuada por momentos de ternura. De uma coisa temos a certeza: a violência, a raiva e o ódio geram mais violência, mais raiva e mais ódio, mas é essa a humana tentação. Só o amor e o perdão podem salvar. É essa a esperança que a estrada nos deixa. Mas setenta vezes sete é uma viagem muito longa.

Três Cartazes à Beira da Estrada, Martin McDonagh,
Drama, M/16, Big Picture Films, GB/EUA, 2017

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