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Deus é o próprio Bem

Miguel Ângelo, na Capela Sistina, pintou Deus sob a forma de um ancião vigoroso e imponente. A representação pictórica foi feita de acordo com os novos padrões da época, os quais encorajavam a arte a inspirar-se na herança greco-latina, cheia de modelos antropomórficos. Claro que Miguel Ângelo sabia que Deus não tem a forma de um ser humano, mas a arte procura muitas vezes tornar visível o que o não é, assumindo o risco.

Silanion, Cabeça de Platão, Musei Capitolini. https://commons.wikimedia.org/
Silanion, Cabeça de Platão, Musei Capitolini.
https://commons.wikimedia.org/

Os filósofos antigos, apesar de estarem imersos nessa cultura, posteriormente adaptada por Miguel Ângelo e por outros artistas, em que a antropomorfização do divino era comum e bem aceite, deram-se conta da incomensurável distância que existe entre Deus e qualquer ser concreto. Na maior parte dos filósofos antigos, o divino não pode ser confundido com um corpo humano. Façamos aqui uma exceção para os filósofos epicuristas, segundo os quais os deuses habitavam no intervalo dos vários mundos, tinham corpo humano e eram compostos indissolúveis feitos de átomos de matéria mais nobre. Mas eram, de facto, uma exceção.

Teoria platónica da participação

Platão foi um dos pensadores antigos que mais longe foi ao conceber Deus. Em Platão, Deus nada tem de corpóreo. Antes se identifica com o Bem, o qual é a própria razão da existência das coisas concretas. Para os Gregos, a ideia de Criação a partir do nada não fazia nenhum sentido e, por isso mesmo, o Bem platónico não é criador. Não obstante, é a razão primeira da existência das coisas. Afirma Platão que todas as coisas que existem são boas porque a sua própria existência resulta da presença, em todas elas, do próprio Bem – e que é isso que lhes permite serem.

Tudo quanto existe participa, toma parte do Bem primeiro; e a isto se chama teoria da participação.

Embora não tenha sido formulada por um autor cristão, a teoria da participação veio a revelar-se um instrumento teórico muito importante para os nossos primeiros teólogos explicarem a própria ideia de Criação. Nada há de estranho nisto. Com efeito, o Cristianismo não nasce como construção teórica de intelectuais. Nasce como religião; a teologia e a filosofia cristãs são formuladas depois.

Santo Agostinho

Ary Scheffer, Santo Agostinho e Santa Mónica
Ary Scheffer, Santo Agostinho e Santa Mónica

Destaque-se Santo Agostinho, homem educado nos moldes da cultura antiga, mas que se tornou num dos maiores pilares da Igreja. O Bispo de Hipona, um dos mais argutos teólogos, reconheceu grande valor à teoria da participação, que incorporou no seu pensamento. Aliás, foi o próprio Agostinho que nos disse que a leitura dos livros dos platónicos lhe permitiu eliminar os escolhos que o separavam da fé de Mónica, sua mãe. Uma das suas perplexidades era a existência do mal. Como compreender a existência do mal num mundo que resultasse unicamente da ação criadora de um Deus sumamente bom?

Foi através dos textos de Platão e dos seus seguidores que Agostinho compreendeu que tudo quanto existe é bom, que nada é mau na sua essência. As coisas são boas em si mesmas. O próprio facto de se corromperem – seja física seja moralmente – apenas atesta isto mesmo: que são boas, ou não se poderiam corromper:

E foi-me mostrado que são boas todas as coisas que se corrompem, as quais não poderiam corromper-se, nem se fossem bens supremos, nem se não fossem bens, porque se fossem bens supremos, seriam incorruptíveis, mas, se não fossem bens, não haveria neles o que pudesse ser corrompido. […] Portanto, todas as coisas que são, são boas, e aquele mal cuja origem eu procurava, não é substância, porque, se fosse substância, seria um bem.

Confissões, Livro VII; tradução publicada pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda

Nada do que existe, segundo Santo Agostinho, é mau em si mesmo. A maldade está no uso que o livre arbítrio faz das coisas. Uma faca não é má; mas pode ser mal usada. Chega Santo Agostinho ao ponto de afirmar que os próprios demónios são bons: a sua essência é boa porque provém do Bem primeiro e Criador que é Deus; a maldade está na sua escolha. Isto significa que, sendo o mundo criado pelo próprio Bem, o mal não existe em termos ontológicos, mas somente éticos.

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