Acolher, proteger, promover e integrar

“Paz a todas as pessoas e a todas as nações da terra!”

É com estas palavras que o Papa Francisco inicia a sua mensagem para o dia mundial da paz de 2018. Bem precisados estamos todos de ouvir e proclamar estas palavras. E bem precisados estamos de as ouvir logo no início do ano, quando, de uma maneira ou outra, todos estamos disponíveis para novos recomeços. “Paz a todas as pessoas e a todas as nações da terra”. Repito de novo a citação que deveria ser lembrada, a cada momento, ao longo de todo o ano.

E o texto desta mensagem, intitulado Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz, continua, como que tirando as consequências necessárias para que o dito anteriormente não fique reduzido a um conjunto de boas intenções:

A paz, que os anjos anunciam aos pastores na noite de Natal, é uma aspiração profunda de todas as pessoas e de todos os povos, sobretudo de quantos padecem mais duramente pela sua falta. Dentre estes, que trago presente nos meus pensamentos e na minha oração, quero recordar de novo os mais de 250 milhões de migrantes no mundo, dos quais 22 milhões e meio são refugiados. Estes últimos, como afirmou o meu amado predecessor Bento XVI, “são homens e mulheres, crianças, jovens e idosos que procuram um lugar onde viver em paz”. E, para o encontrar, muitos deles estão prontos a arriscar a vida numa viagem que se revela, em grande parte dos casos, longa e perigosa, a sujeitar-se a fadigas e sofrimentos, a enfrentar arames farpados e muros erguidos para os manter longe da meta.

O texto é impressionante, não só pelos números que apresenta, como também por imediatamente nos convidar a dirigir o nosso olhar e a nossa atenção para realidades concretas que não podem deixar de ser tidas em conta, se não quisermos que as nossas afirmações sejam mentirosas e nos tornem mentirosos.

Se verdadeiramente queremos e desejamos a paz; se convictamente acreditamos que ela é condição indispensável para a realização e promoção da condição humana; se sinceramente reconhecemos nela uma marca da identidade do projeto do nosso Deus, então não podemos deixar de fazer tudo o que for possível para que ela seja uma realidade, sobretudo para aqueles que dela mais estão afastados.

Os migrantes não são uma ameaça, mas uma oportunidade para a construção da paz

São muitas e variadas as razões que levam este número impressionante de pessoas a migrar. Mas por detrás de todas elas aparece esta nota comum da falta de paz. Perante este movimento a atitude desta Europa em que vivemos tem sido muitas vezes, demasiadas vezes, de desconfiança e receio, mostrando uma grande indisponibilidade para permitir a entrada nas suas fronteiras.

Com a ousadia a que já nos tem vindo a habituar, o papa Francisco diz que estes migrantes e refugiados não são uma ameaça, convidando a um olhar de confiança que neles reconheça, pelo contrário, uma oportunidade para a construção da paz.

Encontro do Papa Francisco com refugiados do Iraque e da Síria, na Turquia, 30 de novembro de 2014. EPA/OSSERVATORE ROMANO
Encontro do Papa Francisco com refugiados do Iraque e da Síria, na Turquia, 30 de novembro de 2014. EPA/OSSERVATORE ROMANO

Os migrantes enriquecem a vida dos países que os acolhem

E para que isso seja possível é necessário acolher, proteger, promover e integrar todos estes homens e mulheres. Quem assim fizer,

saberá descobrir que eles não chegam de mãos vazias: trazem uma bagagem feita de coragem, capacidades, energias e aspirações, para além dos tesouros das suas culturas nativas, e deste modo enriquecem a vida das nações que os acolhem. Saberá vislumbrar também a criatividade, a tenacidade e o espírito de sacrifício de inúmeras pessoas, famílias e comunidades que, em todas as partes do mundo, abrem a porta e o coração a migrantes e refugiados, inclusive onde não abundam os recursos.

É preciso salvar a política internacional do cinismo e da globalização da in diferença

E neste itinerário o Papa aponta metas muito precisas:

Almejo do fundo do coração que seja este espírito a animar o processo que, no decurso de 2018, levará à definição e aprovação por parte das Nações Unidas de dois pactos globais: um para migrações seguras, ordenadas e regulares, outro referido aos refugiados. Enquanto acordos partilhados a nível global, estes pactos representarão um quadro de referência para propostas políticas e medidas práticas. Por isso, é importante que sejam inspirados por sentimentos de compaixão, clarividência e coragem, de modo a aproveitar todas as ocasiões para fazer avançar a construção da paz: só assim o necessário realismo da política internacional não se tornará uma capitulação ao cinismo e à globalização da indiferença.

Este é um desafio também dirigido às comunidades cristãs e estou profundamente convicto que, no mundo em que vivemos, muita da sua credibilidade passa pela maneira como ousarem comprometer-se com a construção da paz também a este nível.

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