Presépio de Trono – Figurado em barro de Estremoz

Quando Francisco de Assis representou o primeiro presépio, em 1223, a celebração do Natal mudou para sempre. A apresentação da Sagrada Família numa humilde gruta será divulgada por todo o mundo, louvando o nascimento do Menino Jesus, festividade que se sobrepõe ao período das festas pagãs do solstício de inverno, entronizando a simbologia de Cristo Luz do Mundo.

Depois do Concílio de Trento no século XVI, quando surgem os tronos da capela-mor nas igrejas para exposição do Santíssimo Sacramento, muitas igrejas dedicam também uma das capelas laterais ao Menino Jesus, onde era colocada a imagem de Jesus, Cristo triunfante, Rei do Universo, com os símbolos da realeza e do poder (a coroa e o mundo nas mãos ou a seus pés).

É a partir destes altares que se desenvolvem os presépios em escada, uma tradição francesa que se difunde em Portugal, sobretudo no Alentejo e Algarve, e levada depois para as ilhas da Madeira e dos Açores, estendendo-se também ao Brasil e um pouco por toda a América Central e do Sul.

Presépio de altar da ilha da Madeira, 2002, Coleção particular de Fernando Nunes Canha da Silva, © José Avelar/Museu de Lisboa
Presépio altar da ilha da Madeira, 2002, Coleção particular de Fernando Nunes Canha da Silva, © José Avelar/Museu de Lisboa

Os presépios altar, também chamados de Altarinhos ou Searinhas, evocam os altares das igrejas, cuja estrutura é formada por uma sequência de três ou sete degraus em madeira. No topo, é colocado, o Menino Jesus, por vezes enquadrado num arco de flores de papel em forma de auréola (ilha da Madeira) ou decorado com verdura local da época, como por exemplo de cedro, azevinho ou camélia (Açores). O Menino Jesus abençoa os produtos da terra que são colocados no presépio, apelando à abundância (na ilha da Madeira colocam-se castanhas, tabaibos, nozes, laranjas, tangerias, peros, etc; no Algarve é tradição colocar laranjas, tangerinas, amêndoas ou alfarrobas).

Nos vários degraus, são colocadas imagens de barro, normalmente representando as profissões tradicionais, assim como tigelas com trigo, ervilhaca, lentilhas ou tremoço. Estes devem ser postos a germinar no dia de Santa Bárbara (4 de dezembro), no dia da Imaculada Conceição (8 de dezembro) ou no dia de Santa Luzia (13 de dezembro). Na Madeira, a colocação em vasos deve ser feita por altura da primeira Missa do Parto (17 de dezembro).

Também os presépios de Estremoz (1), depois de uma profunda reforma no século XX, irão evidenciar uma estrutura em altar, embora integralmente produzidos em barro. Podemos encontrar alguns paralelismos entre estes presépios e os tradicionais tronos de Santo António, que se armam para as festas de Santo António durante o mês de junho, no período das ancestrais festividades do solstício de verão: estrutura de madeira, disposta em escada, cuja simbologia dos elementos decorativos remete também para o altar de igreja, complementado com as plantas da época (neste caso manjericos e cravos), encimada pela imagem de Santo António com o Menino Jesus ao colo. Também aqui se pede a proteção e a bênção do divino, simbolizado pelo pão de Santo António, que deve ser conservado em casa de um ano para o outro para que nunca falte alimento.


(1) Imagem inicial: Presépio de Trono – Figurado de Estremoz, 1970-1980, José Moreira e Josefina Moreira, Museu Municipal Prof. Joaquim, Vermelho, Estremoz, © José Avelar/Museu de Lisboa.

A UNESCO classificou, a 7 de dezembro de 2017, como Património Cultural Imaterial da Humanidade a produção dos Bonecos de Estremoz, em barro, uma arte popular com mais de três séculos. A classificação da Produção de Figurado em Barro de Estremoz, vulgarmente conhecida como Bonecos de Estremoz, foi decidida na 12.ª Reunião do Comité Intergovernamental da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) para Salvaguarda do Património Cultural Imaterial.

No Museu de Lisboa – Santo António, está patente, durante todo o mês de dezembro de 2017, uma exposição com presépios de Estremoz.

Mensageiro de Santo António
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