O que fazem os pobres à porta da (minha) igreja?

Os pobres incomodam. Tiram ‘beleza’ à entrada do templo. ‘Assustam’ os que vêm simplesmente rezar. Os pobres ‘sujam’ o chão e ‘afastam’ o turismo. Os pobres… chateiam. Era tão bom se houvesse um ‘qualquer lugar’ onde pudessem estar sem que eu os visse.

A sociedade ideal parece que é a que não tem pobres ‘à vista’. Mas, na verdade, a sociedade ideal é que não tem pobres. Não é uma questão de ‘esconder’, de fazer ‘desaparecer’ por uns dias ou de determinados locais… mas de erradicar definitivamente a pobreza. A verdade é que há pobres e provavelmente nunca deixará de haver.

Cada pobre tem um nome, tem uma história, tem uma terra… tem um pai, uma mãe… e, às vezes, ‘companheiro’ e filhos! São pessoas, não são pobres. São pessoas que as circunstâncias e a vida ‘tornou’ pobres. Muitas vezes, nasceram num ‘berço’ que não lhes facilitou a vida, outras vezes foram opções e ‘apostas’ erradas.

O pobre podia ser cada um de nós

Antes de começar a julgar, antes de começar a criticar… podemos começar por pensar que o pobre podia ser cada um de nós. Cada uma das nossas vidas, se passasse pelas mesmas condições e circunstâncias, talvez tivesse final semelhante.

Temos pobres e felizmente que alguns deles continuam à porta da Igreja. A Igreja sempre foi uma ‘casa’, sempre foi o último reduto para muitos… O António, o Gabriel, o Fernando, o Nuno… estão à porta da (minha) igreja. São uma provocação. Uma provocação ao comodismo, à indiferença, à teorização ou espiritualização do evangelho. De facto, a sua presença acaba por ser um desafio prático e imediato à concretização do evangelho – de cada domingo. É bom saber o nome. Afinal, fazem parte da comunidade. Passam muitas horas à porta da Igreja.

Se os pobres não estiverem na missa é porque lha roubaram

No entanto, a primeira ‘esmola’ que podemos dar é convidá-los a entrar dentro da Igreja, é convidar a participar da alegria da comunidade, sobretudo, da eucaristia. Na verdade, ‘se os pobres não estiverem na missa é porque lha roubaram’ (Bento Domingues – in Público, a 19.11.2017).

A primeira ‘moeda’ que lhe podemos dar é chamá-los pelo nome, é tentar saber da sua história, da sua semana, das suas necessidades, dos seus problemas. Uma escuta que procura algumas ‘soluções’ – umas mais imediatas, outras mais consistentes. Claro que há muita pobreza e nem sempre quem pede é quem precisa mais.

Claro que podemos dar muitas desculpas para passar ‘adiante’, para ignorar, para evitar o olhar… O sacerdote e o levita também deixaram um homem à beira do caminho para irem para o templo… apenas o samaritano teve coragem e compaixão, aproximou-se daquele homem e cuidou dele.

Os pobres são a porta

Por tudo isto, não basta pensar que os pobres estão à porta. “Na realidade, eles não estão sentados à frente da porta, são eles a porta para chegar a Deus, este Deus que nos pergunta sempre: ‘Onde está o teu irmão?’ (Gn 4, 9). Os pobres mostram-nos Deus. (…) Os pobres são a porta santa. São a mais santa das portas santas” (Tolentino Mendonça, in Assis, 30 a 19.9.2016).

Todos somos mendigos do essencial

O Papa Francisco toma a palavra antes do almoço com os sem abrigo, desempregados e migrantes, no átrio Nervi do Vaticano, 19 de novembro de 2017, EPA/CLAUDIO PERI.
O Papa Francisco toma a palavra antes do almoço com os sem abrigo, desempregados e migrantes, no átrio Nervi do Vaticano, 19 de novembro de 2017, EPA/CLAUDIO PERI.

Por isso, não deixa de ser especial que o Papa Francisco tenha instituído o Dia Mundial dos Pobres, quase no fim do ano litúrgico. No contexto dos discursos escatológicos, na expetativa da vinda do Senhor… eis que nos deixa os ‘pobres’ como a ‘porta de entrada’ em Deus ou a ‘porta da 2ª vinda do Senhor’.

Diz o Papa na homilia desse mesmo dia:

A omissão é (…) o grande pecado contra os pobres. Aqui assume um nome preciso: indiferença. Esta é dizer: ‘Não me diz respeito, não é problema meu, é culpa da sociedade’. É passar ao largo quando o irmão está em necessidade, é mudar de canal, logo que um problema sério nos indispõe, é também indignar-se com o mal, mas sem fazer nada. Deus, porém, não nos perguntará se sentimos justa indignação, mas se fizemos o bem.
‘Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes’ (Mt 25, 40). Estes irmãos mais pequeninos, seus prediletos, são o faminto e o doente, o forasteiro e o recluso, o pobre e o abandonado, o doente sem ajuda e o necessitado descartado. Nos seus rostos, podemos imaginar impresso o rosto d’Ele; nos seus lábios, mesmo se fechados pela dor, as palavras d’Ele: ‘Isto é o meu corpo’ (Mt 26, 26). No pobre, Jesus bate à porta do nosso coração e, sedento, pede-nos amor.

Papa Francisco

Em cada pobre há um potencial de encontro com Deus e de página viva do evangelho, em cada pobre há uma ‘porta’ que nos eleva até ao Céu. O Papa, nesta mesma homilia, disse que eles eram o “passaporte para o paraíso”. Cada pobre desafia-nos a sermos verdadeiras comunidades. Com eles podemos compreender melhor a força do início da única oração que Jesus nos ensinou: ‘Pai-Nosso’. Pai-Nosso não é ‘pai-meu’.

Por fim, temos que reconhecer que “todos somos mendigos do essencial, do amor de Deus, que nos dá o sentido da vida e uma vida sem fim” (Papa Francisco, Homilia de 19 de nov. de 2017).

Mensageiro de Santo António
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