O Outro lado da esperança

A primeira coisa de que me lembrei ao ver este filme foi das palavras do papa Francisco, no encerramento do Seminário, em Roma, sobre “Repensar a Europa”, e onde ele falou ‘da responsabilidade dos cristãos e do seu contributo para o futuro da Europa’. “Qual é a nossa responsabilidade num tempo em que o rosto da Europa é cada vez mais marcado por uma pluralidade de culturas e de religiões, enquanto, para muitos, o cristianismo é visto como algo do passado, longínquo e estranho?”, perguntava.

O Outro Lado da Esperança conta a história de um rapaz sírio, da cidade de Alepo, que foge da guerra, depois de toda a sua família ter sido morta num bombardeamento (excepto a irmã, Miriam) e que, após uma grande ‘peregrinação’, chega a Helsínquia, Finlândia, ‘enterrado’ no carvão transportado por um cargueiro.

É um rapaz bom, muito sensível e educado, com uma história comovente, que acredita ter chegado a um país onde poderá viver, mas a quem acaba por ser recusado o asilo por a sua terra, afinal, não ser assim tão perigosa! E logo quando a televisão noticia precisamente terríveis bombardeamentos na sua cidade! O filme mostra bem essas contradições dos insensíveis decisores.

Tem razão o papa Francisco: “O primeiro e talvez maior contributo que os cristãos podem trazer à Europa de hoje é recordar que esta não é um conjunto de números ou instituições, mas que é feita de pessoas concretas”.

Bom, o pobre Kahled, encoberto por uma boa funcionária do Centro de Acolhimento para refugiados, foge à deportação e ajudado também por um estranho dono de um restaurante, começa a trabalhar e consegue mesmo um cartão de cidadão finlandês falso.

Mas, desde o início, sabemos que ele, algures numa fronteira, tinha sido separado da irmã que tinha fugido com ele da Síria, bem como da sua determinação para tentar encontrá-la. O que também acaba por acontecer, já quase no final do filme, em aberto. Mais uma vez, volto ao papa Francisco: “A família, enquanto primeira comunidade, permanece como o mais decisivo lugar da redescoberta”. Redescoberta de quê? “Reconhecer que o outro é, acima de tudo uma pessoa, significa valorizar o que me une a ele. Por isso, um contributo que os cristãos podem trazer para o futuro da Europa é a redescoberta do sentimento de pertença a uma verdadeira comunidade”.

Estou a tentar falar de um filme que coloca diante de nós o drama dos refugiados, a nossa dificuldade em aceitar os estrangeiros, em perceber a sua situação e sofrimento, o modo frio e burocrático com que os ‘acolhemos’, a violência com que os (des)tratamos… Mas também a existência de pessoas boas e disponíveis para ajudar.

Alguém escreveu que “o grande problema do filme reside na sua falta de alcance político, na ingenuidade do seu discurso humanista e voluntarista, que só conhece uma palavra de ordem: “homens de boa vontade de todo o mundo, uni-vos”.

Ora, nós que nos preparamos para celebrar o Natal, vamos precisamente voltar a ouvir esse canto luminoso, na noite de Belém: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens e boa vontade”. Se, ao menos, fôssemos capazes de ser homens e mulheres de boa vontade, muito contribuiríamos para uma Europa mais fraterna e um Mundo mais solidário.


O Outro Lado da Esperança
Filme de Aki Raurismäki, Finlândia, 2017

Autor do anterior Le Havre, também ele à volta do drama dos refugiados

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