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O anti-Natal

Desde novembro que andava incomodada com o “trânsito de Natal”. A época natalícia assemelha-se, por vezes, a um conjunto sem fim de vésperas de fim-de-semana prolongado, em que os carros disputam o espaço na estrada e no estacionamento em frenesi histérico. Sabe-se bem a razão, que nada tem a ver com o Menino Jesus: as compras. A comercialização do Natal veio desvirtuar muita coisa e, durante muito tempo, encarei-a como o anti-Natal.

Acontece que há dias passei os olhos por um anti-Natal muito pior. Desde então, a secularização do Natal parece-me ter perdido importância.

Na quadra da Vida, há quem perca o desejo de viver

No Natal celebra-se a Vida, a Luz que encarna e sai das entranhas de Maria para iluminar o mundo. Até nas antigas religiões pagãs se celebrava nesta época – não se festejava a Vida, mas festejava-se a vida: pedia-se, então, que a letargia do frio desse lugar a colheitas férteis. Estamos na época em que a Palavra se faz carne, em que a Vida se manifesta em grau sumo. E, contudo, os médicos assinalam: nesta quadra as depressões tendem a agravar-se. Em verdade, na quadra da Vida, há quem perca o desejo de viver.

A depressão é uma doença complexa e ainda estigmatizada, que cruza aspetos físicos, mentais e espirituais. É certo que existem padrões, mas cada caso é um caso e deve ser lido como único – porque a pessoa que padece é, também ela, única e irrepetível. Se a chama da sua vida aqui na terra se extinguir, não haverá outra que a iguale.

É certo, as pessoas são substituíveis, se assim não fosse, as instituições não teriam continuidade, terminariam com o desaparecimento terreno dos seus membros. As pessoas são substituíveis do ponto de vista funcional; mas irrepetíveis do ponto de vista ontológico.

Depressão e suicídio

A desolação nas terras de Pedrógão Grande, novembro 2017, MSA
A desolação nas terras de Pedrógão Grande, novembro 2017, MSA

A depressão descamba muitas vezes em suicídio. Este é, literalmente, um homicídio feito a si mesmo: deriva das palavras latinas sui, que significa de si, e occidere, matar. Na Antiguidade Clássica era um ato permitido e mesmo socialmente aceitável; em circunstâncias específicas, visto, até, como uma saída honrosa. Contra ele clamaram, primeiramente, a filosofia platónica e, depois, o Cristianismo. Ambos sublinhavam, em uníssono, a ilegitimidade do ato no qual o autor suprimia algo que não se dera a si próprio e que jamais poderia restituir.

Isto parece lógico. Mas, e o que dizer se a pessoa que tira a própria vida não está em condições de compreender isto?

Nos últimos anos, a comunicação social não tem divulgado casos de suicídio. Trata-se de uma medida prudente. O ser humano aprende mimeticamente e apresenta pela vida fora uma (maior ou menor) tendência para reproduzir comportamentos. Quanto mais frágil ou desorientado se está, mais fácil é repetir, consciente ou inconscientemente, as atitudes de outros. Se o silêncio da comunicação da social trava a repetição, não impede, porém – porque não pode – as ocorrências.

Foi aí que o trânsito deixou de ter importância

E, por acaso, uma passou-me pelas mãos e debaixo dos olhos. Tinha acontecido dias antes. Foi aí que o trânsito deixou de ter importância para mim. Veio em papel. Era uma fina folha de papel. Quando a li, parecia pesar mais de vinte quilos – uma comum certidão de óbito impressa a preto e branco. Não conhecia a pessoa; no entanto, a juventude da vítima de si própria atestava que a morte sucedera demasiado cedo; a vida mal começara!

Pode a depressão de alguém agravar-se pela falta de sol ou pela perda de um emprego. Pode alguém estar quimicamente desequilibrado. Ou até entristecido com uma família que nunca o foi. Estaria no sítio errado à hora errada e cedeu à tentação? Os fatores podem ser diversos e cruzados. Apenas Deus consegue perscrutar as almas: a nossa e a dos outros. Assim, apenas Ele pode julgar.

É mais fácil alimentar o corpo do que alimentar a alma

Os cabazes de Natal são palpáveis. Podemos guardar espaço nos nossos carrinhos para géneros alimentares. Deixar donativos. Ensacar roupa para doação. Brinquedos. Afinal, tudo isso é fácil. De agarrar e entregar.

E as almas daqueles que, vivos e respirando, estão já mortos por dentro? Que Deus nos dê a graça de as conseguirmos reconhecer e acudir a tempo. Mas porque Deus agradece o nosso empenho, vigiemos.

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