Maria e o feminino na Igreja

Para que precisa um Deus, supostamente omnipotente, de uma mulher para se manifestar no mundo na forma de um homem? Por que razão não o faz através de um ato direto qualquer? Não tem poder para tal? Então, não é Deus. Que razão pode haver para que um tal Deus prescinda aparentemente da sua majestosa omnipotência e se transforme em carne humana através da carne de uma mulher?

A resposta é simples: porque apenas através da mulher pode haver homem, qualquer que seja, mesmo que seja o Deus-homem. A carne, divina que seja, é sempre criada por outra carne. É a densidade carnal da mulher que cria, através da metamorfose da sua matéria em carne de um outro, que confere densidade, corpo, corpo próprio e irredutível, ao novo ser. O ventre é um cadinho de criação de humanidade. Todo o ser humano sai deste ventre.

Mesmo que o ventre físico possa ser mecanicamente substituído, essoutro ventre espiritual que é o ato de amor pelo novo ser nunca tem substituto possível: não há sucedâneo para o amor.

Ora, o amor é um ato. É o ato: é, aliás, indiscernível do ato pelo qual Deus cria o mundo – Deus é o primeiro ventre espiritual de tudo. Criar é dar-se por amor. Cada ato de cada dia da criação é concepção, geração e parto das criaturas. Deus é Pai, diz-se; mas criar é essencial e substancialmente, simbolicamente também, feminino.

Deus é Mãe

Este ato de amor não é fundamento gramático do ser, não tem género: no entanto, como não pensar que criar é universalmente feminino? Deus é Pai, mas, quando exatamente cria, Deus é Mãe. Deus não tem propriamente género, mas cria como quem dá à luz o ser. Absolutamente. Mesmo a própria luz é Deus quem a dá à luz. Por duas vezes.

Toda a criação possui intrinsecamente esta marca feminina, que transcende género, que significa a criaturalidade do ser, mas também o seu carácter fecundo, matricialmente fecundo. Ser, como criatura, é ser parido como fruto do amor de Deus. É isto o feminino: o sentido criador e mantenedor presente em cada criatura, isso sem o que nada é.

A mulher como figura simbólica e as mulheres como ato real presente no mundo são concretamente esta capacidade de criar. Ironicamente, poderíamos dizer que “de criar mesmo os homens que as negam como criadoras”.

A feminilidade como matriz criadora

Nossa Senhora e o Menino, Albin Egger-Lienz, 1921
Nossa Senhora e o Menino, Albin Egger-Lienz, 1921

Simbolicamente, mas também no concreto da vida, sem a mulher não há capacidade criadora: retirem-se todas as mulheres do mundo e espere-se.

O pedido de Deus a Maria para que fosse a mãe de Jesus, pedido sem violência, é o ato de total respeito pela feminilidade como matriz criadora: sem a aceitação de Maria, não se criaria o homem-Deus-salvador. É apenas esta a importância real – mas profundamente simbólica – da mulher como criadora.

Criação que é sempre ato litúrgico, de serviço, como litúrgicos foram os sete primeiros atos de Deus. O oitavo exerceu-o no seio criador, assim também criador, da moça Maria. Ora, sem esta moça, potentíssimo ventre criador, com Deus, do Deus-homem, não haveria Igreja.

Maria é, assim, a mãe da Igreja porque é parte do ato criador de esse que é o caminho, a verdade e a vida da mesma Igreja, como caminho e vida, em verdade, em toda a verdade, mesmo a do feminino como mãe.

É apenas através do corpo vivo, real, do Cristo que fundou e mantém a Igreja, que o Espírito pode nela habitar e que o Pai pode nela ver o instrumento de auxílio ao bem último dos que criou para que d’Ele possam eternamente gozar em amor.

Está por cumprir a dimensão feminina do corpo da Igreja

Maria deu corpo a Jesus, que deu corpo à Igreja. Deste modo, pela obra da sua Mãe, a Igreja é intrínseca e profundamente feminina. No entanto, falta cumprir-se a marca que o dom matricial da Mãe pôs na Igreja, de cujo ato, eternamente, é ventre.

A dimensão feminina do corpo da Igreja está por cumprir. É o símbolo pleno da fecundidade que está ineficaz.
Da sua eficácia dependerá muito do futuro da Igreja e da própria Humanidade, impossíveis sem Espírito, sem ventre criador.

Mensageiro de Santo António
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