Fátima… E depois dos 100 anos?

Cem anos passados, Portugal e o mundo revisitaram as aparições da Virgem.

Foram feitos estudos de índole variada – teológica, histórica, cultural, política, sociológica e filosófica, apenas para citar as principais – no intuito de se saber mais e com maior profundidade acerca dos três meninos, da mensagem que receberam, do contexto histórico antes, durante e depois das aparições.

O mundo mudou

Fátima, escultura comemorativa da visita do Papa Francisco nos 100 anos das aparições, da autoria de Fernando Crespo, Coimbra
Fátima, escultura comemorativa da visita do Papa Francisco nos 100 anos das aparições, da autoria de Fernando Crespo, Coimbra

Desde há cem anos, o mundo mudou – e Portugal com ele. Duas guerras mundiais, a Guerra Fria, ditaduras, os movimentos anticoloniais, o desmoronamento da maioria das potências comunistas, o avanço inédito da tecnologia, com os seus benefícios e malefícios em diferentes e múltiplos campos.

O tempo prosseguiu a marcha cadenciada de segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses anos, atirando o mundo para a frente; seguindo a pulsação inexorável, o planeta avançou, Portugal avançou, a Igreja avançou, transportando com ela as lições reveladas em Fátima. Estas, tal como as parábolas de Cristo, não perderam a sua atualidade, podendo ser revisitadas à luz do tempo em que são lidas. Não foram apenas escritas para o presente deles ou para o nosso presente; dirigem-se ao próprio presente dos vindouros.

A dimensão feminina do acontecimento das Aparições

Algo que me toca na vinda de Maria ao encontro das três crianças é a dimensão feminina do acontecimento. Duas meninas e um menino, em ambiente bucólico guardando o seu rebanho, são visitados pela Virgem – o próprio arquétipo da feminilidade. Nesse instante, o campo aberto transforma-se em espaço de intimidade e recolhimento. A Virgem toca as almas das crianças pela doçura e beleza, inspirando-lhes amor. A bondade de Maria, o amor que lhes tem e dá, permitem aos meninos suportar tormentos vários – a repressão, o terror, a doença, o sofrimento e a morte.

Em Fátima mostra-se que os mais pequenos dos pequenos podem ser maiores do que os maiores deste mundo. Maria escolhe-os, nutre-os, robustece-os, de modo maternal; mas, também como mãe, prepara-os para o que irão enfrentar até as suas almas florescerem – e o seu amor não os abandona, está sempre com eles.

Não poderá a ação da Virgem em Fátima ser vista como uma síntese da ação da Igreja? Esposa de Cristo, a Igreja recolhe no seu seio os seres humanos que a ela se acolhem, assistindo-os em vida: na alegria, no sofrimento, na preparação para a passagem que é a morte.

O que podem os homens os homens fazer pela Igreja?

Aborda-se frequentemente a possibilidade de a Igreja dar mais espaço à ação das mulheres no seu interior. O que podem as mulheres fazer pela Igreja? Como mulher, dou por mim a pensar que a questão faz sentido; e isto independentemente da conclusão a que se chegue ser mais ou menos revolucionária. Todavia, também como mulher, dou por mim a pensar se a pergunta é assim tão acertada. Há tantas mulheres e tão importantes em toda a História da Igreja… Dou, então, por mim a formular a pergunta inversa: e o que podem os homens – os varões – fazer pela Igreja?

Parece-me que a questão não deve ser apenas posta de um dos lados, sob pena de se desequilibrar os pratos da balança. Estarão os homens apaziguados com o seu papel? Permitir que o homem, enquanto parte integrante da Esposa de Cristo, possa contribuir para o cumprimento da dimensão feminina da Igreja, talvez beneficie a própria Igreja e a ação desta no mundo. E se esta for uma interpelação de Fátima para o futuro?

Mensageiro de Santo António
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