Uma Igreja de mulheres e de homens

Pensar sobre o lugar da mulher na Igreja hoje é pensar sobre o lugar da mulher na sociedade contemporânea. Mas esta frase simples e bem-intencionada encerra desde logo dois equívocos: o de que há uma sociedade contemporânea e o de que há um lugar para a mulher.

No que se refere ao primeiro equívoco, não o podemos contornar num texto desta dimensão e, por isso, socorremo-nos de um ajuste geográfico-cultural: falemos de sociedade contemporânea ocidental, referindo-nos às democracias de raiz liberal, europeias e americanas.

Quanto ao segundo equívoco, superemo-lo desde já: não há um lugar para a mulher, pois o lugar das pessoas, homens ou mulheres, em qualquer idade, é exatamente o mesmo.

Ou melhor, é qualquer lugar em que sejam precisos ou em que queiram estar, dentro de um lugar-primeiro que é o nosso mundo, a casa comum que habitamos e que, como nos instou o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si, devemos cuidar com a devoção, a gentileza e a responsabilidade de quem possui um tesouro.

Não adianta fazer muita ginástica retórica para convencer quem não quer ouvir que a justiça é um valor superior ao da tradição; não adianta ainda debater as vantagens da igualdade de género; não vale a pena, sequer, deixar-se enredar pela controvérsia sobre a insuficiência da definição, do que é o género, do que é a igualdade.

Sejamos claros: às mulheres, como aos homens (às meninas, como aos rapazes), devem ser dadas as mesmas oportunidades de desenvolverem as suas capacidades intelectuais e afetivas, de escolher o futuro profissional, de decidir sobre as suas vidas privadas, de intervir nas comunidades a que pertencem, de mobilidade geográfica, por exemplo.

Num mundo cheio de desigualdades (a desigualdade de género é apenas uma), as nossas sociedades reconhecem os mesmos direitos de cidadania aos homens e às mulheres.

Porém, somos todos herdeiros de uma milenar história patriarcal. Profundamente enraizado, por exemplo, nas estruturas da língua, este domínio masculino do quotidiano apresenta-se também em aspetos tão díspares como as distintas expectativas que temos em relação ao comportamento social dos indivíduos, nas diferenças salariais entre homens e mulheres, no conteúdo de mensagens publicitárias, na propriedade, na designação da conjugalidade (“a mulher de”…), entre outros aspetos.

Todavia, onde a desigualdade parece ser mais exuberante é na sub-representação das mulheres em tantas e tantas áreas da vida pública e privada.

Se temos dúvidas, basta ler a imprensa ou ouvir as rádios, nacionais ou regionais, e observamos uma esmagadora presença masculina, tanto nos protagonistas como na própria narrativa.

Esmagadora, sim, porque passa por cima, calca, omite, uma parte das pessoas. E perpetuar uma injustiça milenar não é bom. Sem mais adjetivos pomposos e até mais exatos, simplesmente, isso não é bom. Para ninguém, aliás.

Não é bom que só uma parte das pessoas possa falar e seja ouvida. Não é bom que só uma parte das pessoas – sempre a mesma parte, neste caso – seja tida em conta e que tome para si as contas do mundo.

Olhemos uma fotografia do hemiciclo da Assembleia da República e façamos como a revista Elle fez em Inglaterra: retiremos os homens presentes; quantas mulheres ficam? Façamos o mesmo exercício para uma hipotética foto conjunta dos conselhos de administração das maiores empresas portuguesas, ou para uma fotografia dos comentadores e cronistas habituais dos media em Portugal. Quantas mulheres “restam”?

E nas reuniões da Igreja portuguesa? E nos encontros da Igreja no resto do mundo? Se retirarmos os homens, o que “sobra”? Às vezes pouco, às vezes nada…

Não queremos uma sociedade e, portanto, não queremos uma Igreja, em que as mulheres sejam aquilo que resta, em que o seu empenho seja reduzido ao silêncio, à invisibilidade das tarefas de apoio. Não ao serviço, que deve ser o de todos, mas à servidão (veja-se o comentário, em 2013, do Papa Francisco à carta apostólica Mulieris dignitatem, de S. João Paulo II).

É preciso olhar com consciência para a nossa realidade e tentar intervir nela para a melhorar. Ser exigente com os outros, mas exigir de nós também ações concretas e empenhadas na luta contra as injustiças veladas do dia-a-dia, na procura da igualdade e sobretudo da presença ativa de mulheres e homens nos vários domínios da vida pública comum. Não nos encostemos à tradição, por exemplo, ou a uma leitura exclusivamente literal da Bíblia, palavra revelada, necessariamente mediada por milénios de história humana e presença divina, num caminho construído com esperança.

Numa leitura que nunca se esgota, muito se tem meditado e escrito sobre a presença das mulheres na Bíblia, em particular sobre a importância de Maria, mãe de Jesus. É bem certo que, no geral, as mulheres são personagens secundárias adjuvantes (para usar terminologia narratológica) e não protagonistas.

Guido Reni, Santa Maria Madalena
Guido Reni, Santa Maria Madalena, apóstola dos apóstolos

Ainda assim, essas personagens secundárias não são de todo insignificantes, nem na Bíblia, nem na história, nem no presente.

Quando Maria Madalena “e a outra Maria” do Evangelho de Mateus foram ver o túmulo, descobriram-no vazio. O anjo instou-as a que avisassem os discípulos. Entre a alegria e o medo, elas correram a dar a boa nova, “E eis que Jesus veio ao encontro delas” (cf. Mt, 28:1-10). A nota de rodapé de Frederico Lourenço à citada passagem da sua tradução dos quatro Evangelhos (Bíblia, volume I, Quetzal) deixa-me a pensar na importância dos pormenores.

Escreve o tradutor: “Muitas figuras vão ao encontro de Jesus nos quatro Evangelhos, mas a presente passagem é a única em que o padrão é invertido: é Jesus que toma a iniciativa de ir ao encontro de alguém (neste caso, das duas Marias)”.

Neste caso, acrescento eu, das duas mulheres e, nelas, ao encontro de todas as mulheres.

Mensageiro de Santo António
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