O que nos faz grandes

Partilho convosco, queridos leitores, uma banal experiência de férias, que, no entanto, me fez pensar e mudar de atitude.
Como um grande número de portugueses, rumei em direção à praia para uns dias de descanso. Sinceramente às vezes interrogo-me se esta é a melhor decisão, uma vez que a concentração de gente nesses locais é tanta que o descanso corre sérios riscos. Em todo o caso, mudam-se as ‘paisagens’ e os ‘ares’, e isso é bom. Como muitos, também passei alguns dias sem fazer grande coisa, a não ser deixar passar o tempo sem a preocupação de o ver passar por ter prazos para cumprir. Também a este nível me surgem muitas interrogações, mas também aqui é boa a mudança de não estar pressionado pelo relógio.

Como muitos, passei algumas horas à beira-mar olhando à volta e vendo as pessoas passar.

Confesso que não é uma atividade muito interessante, sobretudo quando é feita no ‘modo de férias’, em que olhamos só por olhar, ou simplesmente para ‘cortar na casaca’ dos outros (que ainda por cima não se usa nesta altura), vendo como estão muito ou pouco queimados, como são ou não barrigudos, como lhes fica ou não bem aquele fato de banho.
Sinceramente, apesar de não haver pressão com o tempo, isto é uma verdadeira perda de tempo, pelos menos assim o senti.

Deixei de olhar por olhar e passei a ver

Num desses momentos (ainda bem que foi logo nos primeiros dias), vi como um pai se aproximava da água de mão dada com o seu filho. Nada de estranho, a não ser o facto do filho ser já bastante crescido e isso chamou-me de tal modo a atenção que deixei de olhar por olhar e passei a ver com mais atenção.
O filho, um rapaz já bastante crescido como disse, não correspondia aos chamados padrões de normalidade. O seu caminhar, a maneira como se movimentava, o modo como abanava a sua cabeça eram diferentes do habitual.
Mas não foi nada disso que me fez mudar o modo de olhar. O que provocou essa mudança foram os inequívocos sinais de alegria e felicidade tanto no rosto do pai como do filho. Mais do que uma vez os vi entrarem dentro de água e pude observar, com um profundo deleite, como brincavam um com o outro e como isso os fazia felizes. O carinho que tinham um para com o outro era tão evidente! Não correspondendo a qualquer formalismo, era claramente uma cumplicidade natural.
Não sei nada acerca deles, nem o nome, nem onde moram, nem o que fazem, mas devo-lhes uma mudança de atitude nas férias.
Não gastei muito mais tempo a olhar por olhar, passei a procurar e promover momentos de encontro, onde o grande objetivo não fosse o fazer alguma coisa, mas o encontro por si mesmo. Ou seja, estar com as pessoas que amo e que me amam sem mais nenhum objetivo que não fosse o estar com elas. Como foram boas estas férias!

De mão dada…

Santuário de São João Paulo II, Cracóvia, Polónia, pormenor do mosaico da Ressureição de Cristo
Santuário de São João Paulo II, Cracóvia, Polónia, pormenor do mosaico da Ressureição de Cristo

O cuidado e o carinho daquele pai, para mim que trabalho na área da reflexão teológica, fez-me pensar em Deus. Com facilidade sou capaz de o imaginar assim, de mão dada connosco, sem mais nenhum objetivo ou compromisso que não seja o de estar de mão dada connosco, sem nos pedir nada que não seja o de estar também de mão dada com ele, gratuitamente, inteiros, como ele faz, sempre que deixamos.

Quantas vezes estamos uns com os outros e mesmo com o próprio Deus, para fazer alguma coisa e não simplesmente para estar?

Isto não quer, de modo nenhum, dizer que não seja importante fazer coisas, pensá-las, projetá-las, concretizá-las em conjunto. Claro que isso é importante. A esse respeito não há qualquer dúvida.
O problema é quando as coisas que fazemos se sobrepõem aos outros, passando elas a ser o mais importante e o foco de toda a nossa atenção e de todo o nosso tempo.
Verdadeiramente o que nos faz grandes não é só o que fazemos ou não, mas o cuidado e a atenção que pomos no encontro com os outros. O que nos faz grandes aos olhos de Deus não é essencialmente o que fazemos, mas o amor e carinho que nos tem.

Não sei o que aquele filho é capaz de fazer, mas sei, porque pude ver, como ele era grande para o pai. E vi também como o pai era grande para ele. E mais, vi como o encontro entre eles os engrandeceu de tal modo, que se destacaram de toda a multidão.

O que nos faz verdadeiramente grandes é o cuidado e a atenção que formos capazes de dedicar aos outros.

Mensageiro de Santo António
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