Maria: Mulher

Maria é, acima de tudo, uma Mulher. Maria é o que Eva não foi: carne.
Eva é a coisa mítica que procura explicar o primeiríssimo acto de mal presente na criação. É paradigma da grandeza humana possível, inconcretizada. Maria é a realidade através da qual, na história, o bem teve a possibilidade de assumir a condição carnal, a mesma que Eva perverteu, mas a fim de permitir uma purificação que anule isso que Eva fez.

Maria, não é, assim, a nova Eva. Entre Eva e Maria, apenas o bem criatural de Deus nas criaturas é comum. Mais nada. O que Eva destrói, Maria reconstrói, dando ventre, sangue, suor e lágrimas para reconstruir.
A carne de Cristo é carne de Maria, não apenas através da relação umbilical, mas, sobretudo, através da relação de amor, que começou pelo sim aquando da anunciação e pedido do anjo. Sem Maria, não havia salvação, pois Cristo nunca teria incarnado. Pela porta feminina entrou a realidade do mal, pela porta feminina entrou a possibilidade e a realidade – dado o sim – do resgate. A carne de Maria é o cadinho da salvação. Humanamente, não há outro.

Pense-se no amor que o Filho teve por esta, também sua, carne. Com Maria, a carne humana divinizou-se, com Cristo, em Cristo. Há, aqui, uma consubstancialidade segundo a carne que convém não esquecer, pois é ela que permite que a salvação seja real, não simplesmente metafórica.
Maria, ontologicamente, é um ser humano, tem, em si, todas as perfeições reais e possíveis de um ser humano. Mas não é um ser humano indiferenciado: é uma mulher.

Auguste Rodin (1840 - 1917) Jovem Mãe na Gruta
Auguste Rodin (1840 – 1917)
Jovem Mãe na Gruta

Tem corpo de mulher. Neste corpo, tem tudo o que distingue a Mulher do que não é mulher. Fêmea humana plena, fêmea fértil, fêmea perfeita, que se entrega, consubstanciada em ato de confiança, ao trabalho de pôr no mundo o instrumento adequado ao mundo para salvar o mundo.

Com o sim ao pedido de Deus, a fragilidade da jovenzinha transforma-se na força da Mulher que tudo vai vencer e dar ao mundo um Homem perfeito, em sua humana fragilidade, capaz de anular a dinâmica de morte e manifestar uma nova dinâmica, a de uma vida que coincide com um permanente ato de amor: é este ato que Maria já realiza, sendo, assim, a pedagoga do amor junto do Filho que, com a Mãe, aprendeu o que é amar indefectivelmente.

Maria e Jesus – sem esquecer José, a fundação terrena da família – constituem o paradigma da relação humana perfeita como ato de amor que nunca vacila, em que da consubstancialidade segundo a humana carne se atinge a consubstancialidade segundo o amor, este que nunca é apenas humano, pois é, na humanidade, a realização atual da consubstancialidade potente daquela com Deus.

É este amor sem falha que é a presença de Deus no mundo. Não há outra; o mais são ilusões panteístas, confusão das coisas com Deus.

É neste amor que se funda toda a autoridade de Maria sobre Cristo, em aparente paradoxo de um Deus que obedece a uma criatura. Mas, pelo amor, a criatura, sempre que ama, anula em si a precariedade criatural, tornando-se uma com Deus. É a exatidão do bem de Deus presente em Maria, a que ama, que permite a esta saber, como Mulher e adulta, o que o jovem Deus-em-homem ainda não sabe: que o bem tem hora e lugar próprio, que o bem tem uma urgência que nada pode obstaculizar, sob pena de o aniquilar, Deus que fosse. O vinho, necessário, agora, é agora que é necessário, pois as bodas são agora e não há, em absoluto, substituto para o agora. É isto a eternidade no seu toque com isso a que chamamos tempo. As bodas de Caná, no que de eterno em si há, são Deus, ou não seriam coisa alguma. E o que nelas há de eterno é o amor. O vinho tem de surgir. É este sentido amoroso que faz de Maria capaz de inteligência divina sempre que ama. E Maria ama sempre.

Sempre amando, nunca falha. Nos tempos da agudeza da Paixão, eis a Mulher que está presente. É Maria, a Mulher, toda, que está junto do Filho. Não é Maria, a alma, ou Maria, o espírito, mas o mesmo corpo que criou a carne do Filho, alimentou o Filho, embalou o Filho, que, agora, qual sentinela de Deus na guerra que é o mundo, vela pelo bem da sua obra, obra que é o bem do mundo.

Maria, Mulher, Pilar não só de fé, mas de força. Maria, Mulher de virtude e da virtude.

Maria da ressurreição do Filho. Essa que viu, pela primeira vez, o resultado carnal do amor de Deus, mas de um Deus que, ao transformar-se em carne e ao ser fiel, como carne, ao bem último da carne em que se transformara, eternizou a carne: é esta carne eterna que Maria pode contemplar já na terra no corpo do Filho ainda temporalmente peregrino.

Mas é esta mesma carne que Maria, na sua carne que não morreu, cuja eternidade ganhou pelo amor ao Filho, contempla na carne do Filho – que é carne de Deus –, desde que este a quis, Mulher completa, junto de si. Que maravilha esta a de um Deus que pode abraçar eternamente o corpo da Mãe.

Viva, Maria! Viva, Mulher!

Mensageiro de Santo António
%d bloggers like this: