Jovens frades… na prisão

Já algumas vezes falei do caminho de formação dum frade, caminho de vários anos e com diversas passagens, por vezes difíceis, mas verdadeiramente necessárias e fundamentais.
Os jovens frades, que se preparam para a profissão solene e ordenação sacerdotal, além do compromisso principal do estudo (teologia e filosofia), são envolvidos em várias experiências na paróquia, no hospital, nos lares, na prisão, etc.
Hoje vamos encontrar um jovem frade, frei Nico, estudante em Pádua. Vamos falar sobre o serviço de voluntariado na prisão da cidade de Pádua.

Frei Nico com o Papa Francisco
Frei Nico com o Papa Francisco

Caro Nico, é difícil o teu serviço na prisão?

Esta é uma pergunta que me fazem frequentemente. Quando alguém descobre que passo os meus fins de semana na prisão fica perplexo. Normalmente rio-me. Vem-me ao pensamento que é uma pergunta que contém já a resposta, como quando me perguntam: “mas não tens frio com os pés descalços?”. Na verdade, lá no fundo, está a perguntar-se uma outra coisa: “mas que sentido tem? Porque fazer este esforço?”.
É a mesma pergunta que podemos fazer a Jesus depois de ter ouvido o Evangelho da Ressurreição de Lázaro (o capítulo 11 de João). “Rabi, há pouco os Judeus queriam lapidar-te e tu vais para lá de novo?”, perguntam-lhe os apóstolos, para depois se resignarem: “Vamos também nós para morrer com ele!”. Porquê arriscar a vida? Porquê fazer esta fadiga? Estava-se tão cómodo “além do Jordão”, no seguro, no deserto. Uns versículos depois percebe-se a resposta: “Vede como o amava!”.
O amor é algo que se vê. O amor é algo que te põe em movimento, te faz arriscar tudo e que te desinstala. Algo que te faz chorar e que te faz rir. Assim é também na prisão.
No Evangelho de que falava, chora Marta, chora Maria, chora também Jesus. Amar faz chorar e isto faz com que o amor seja algo que se vê. Também o mal é algo que se vê e que se sente. É também assim na prisão…

Como foi começar esta experiência?

Não foi nada fácil! Recordo-me a primeira vez que lá entrei, alguns meses atrás, pensava: “terei diante dos meus olhos ladrões, traficantes, mafiosos, pedófilos, violadores… vidas que foram quase destruídas pelo mal”. Digo “quase” porque na realidade, imediatamente, tive de por os meus esquemas mentais de lado, tive de deixar espaço àquilo que se vê, “a realidade é superior à ideia”, e eu estava diante de pessoas. Pessoas, como eu, como tu. A maior parte deles, se os encontrasses na rua, nunca dirias que são delinquentes.
Então comecei a pôr de lado os meus preconceitos, a abrir devagar os olhos e a escutar. Escutar as histórias de vida, escutar pode fazer mal, aperta o estômago, faz chorar, como Jesus chorou. A prisão é um lugar onde não existem muitas respostas, não sais dali dizendo “percebi”. Diante do mal que se vê e também diante do amor que se vê, não temos muitas respostas.

Mas não sentes vontade de dar respostas?

Sim. Mas, também no Evangelho da ressurreição de Lázaro, há perguntas sem resposta: “Ele, que abriu os olhos ao cego, não podia fazer de modo que este não morresse?”. Jesus não nos dá muitas respostas. Porém, faz ver (ou intuir) como é que Ele se comporta diante do mal. Nós dividimos o mundo em “bons e maus”, ele divide entre “pecado e pecador”, ou então entre o delito e o preso. Ele condena o pecado, mas ama e salva o homem! Diante do mal, Jesus faz-se companheiro de viagem, porque para ele “justiça” não é qualquer coisa que se aplica, para ele, “justiça” é algo que se procura, juntos.

Ali só encontras sofrimento?

Não. Também na prisão a alegria nos surpreende. São os gestos de bem que existem ali dentro: presos que cuidam de outros, os agentes com o seu lema “difundir a esperança sempre”, as mulheres que esperam 10, 20, 30 anos pelo marido, as mães que nunca os abandonam.
Precisamente, isto é aquilo que Deus faz! Deus faz passar da morte à vida, do sepulcro/prisão à libertação. A libertação é uma passagem difícil, lenta, que tem necessidade de tempo, dedicação, gratuidade e a vontade de uma equipa de pessoas. Tem que haver alguém que tira a pedra dos sepulcros, alguém que grite “vem para fora”, alguém deve tirar com calma e ternura as ligaduras, medicar, curar… e o próprio “morto” deve querer “sair para fora”!

A prisão também é um lugar de esperança?

Sim, é um lugar onde encontro esperança. No Evangelho de São João, que fui citando ao longo da entrevista, a pergunta chave é o próprio Jesus que a faz: “Acreditas nisto?”.
Deus não nos larga, não nos deixa no sepulcro, mesmo se o nosso é um sepulcro de condenados a prisão perpétua. Ele não nos deixa ali, nunca nos abandona! Mas deixa-nos a liberdade de acreditar: “Tu acreditas nisto?”.

Frei Nico com o Papa Francisco
Frei Nico com o Papa Francisco
Mensageiro de Santo António
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