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Aprender a conjugar a vida com o verbo contemplar

A natureza – e o modo como cuidamos dela − revela muito do que somos como pessoas e como sociedade. Somos muito dos horizontes que podemos alcançar e da natureza onde nos inserimos.
Há lugares que alargam o nosso coração e horizontes, que nos fazem respirar outra profundidade. Há momentos que dão (mais) vida à nossa vida.

Provavelmente já todos, ou quase todos, gozámos as nossas férias quando lermos estas palavras.
No entanto, eu escrevo estas linhas ainda em férias. Tempo de descanso, de silêncio e de encontro(s). Neste caso, escrevo numa das nossas ilhas portuguesas. Maravilhado pela natureza, ouvindo o som do mar e contemplando um belo final de dia…

Uma vez mais sinto que tudo isto pode ser ‘caminho’ e ‘sinal’ da presença de Deus. Mas sinto que principalmente a natureza tem um ‘poder’ sobre a nossa existência. Uma natureza que precisa de ser cuidada, valorizada e protegida. É verdade que muitos dos que apreciam hoje a sombra de uma árvore se esqueceram de agradecer quem a plantou.
Num verão fustigado novamente pelos incêndios, sentimos que temos muito a fazer e que muito do nosso ‘equilíbrio’ se perde quando perdemos a natureza.

Estamos a ‘conduzir’ depressa de mais?

Estes dias, mais algumas leituras que tenho feito, têm questionado o meu modo de viver, a pressa de cada momento, o trabalho por ‘objetivos’, as múltiplas reuniões, os demasiados e-mails, o tempo ‘perdido’ em notícias que se repetem e nas redes sociais.

Claro que tudo é preciso e necessário… mas talvez estejamos a ‘conduzir’ depressa de mais só para chegar a casa mais cedo… e se não chegamos?!
Não é apenas uma questão de reduzir a velocidade, não é apenas uma questão de férias, não é apenas uma questão de se ‘desligar’ das redes sociais… é um permanente modo de estar em cada momento. Uma questão de fazer as mesmas coisas com ‘espírito’, a partir do ‘alto’, com leveza, com entusiasmo… conjugando tudo com o verbo contemplar.

Claro que na vida são precisos momentos de férias, de silêncio, de serenidade, de encontro com os que mais amamos, de oração pessoal e comunitária, de retiro… mas não é preciso ‘afastar-se’ do mundo nem desligar-se do quotidiano. É preciso aprender a estar de ‘outro modo’… estar cá inteiro com a certeza de que não somos eternos por cá. Por isso, mais necessidade de ‘estarmos inteiros’ por cá.

Aconselho uma visita ao Topo

Caminho pedestre da Serra do Topo para a Fajã de Santo Cristo
Caminho pedestre da Serra do Topo para a Fajã de Santo Cristo

A terra onde estou a escrever estas linhas, curiosamente, chama-se Topo. Não porque seja um lugar alto, mas porque é o topo de uma ilha, ao que sei, o primeiro lugar a ser habitado da mesma. Este topo tem um farol – o que não deixa de ser interessante. De facto, aconselho a todos uma visita ao Topo. Só precisam de descobrir a ilha!
Mas fico a pensar qual é o topo da nossa vida!? Qual é o topo que a ‘sociedade’ nos desafia a alcançar?! Qual é o topo das nossas empresas?! Qual é o topo da Igreja e de muitas ações que celebramos em comunidade?! Estatuto, dinheiro, poder, imagem…?!
Efetivamente, muitos desses topos são topos muito rasos, topos muito frágeis, topos muito efémeros… onde se consegue estar algum tempo mas não dá para ficar a viver lá! Para chegar a esse topo, algumas vezes, tivemos de ‘empurrar’ alguém… amanhã será a minha vez de ser empurrado. Muitos desses topos não satisfazem nem dão sentido mais profundo aos nossos dias. Não são farol, nem iluminam as noites… quando muito podem parecer ‘fogo de artifício’, que passa depressa, custa caro e não é ‘verdadeiro’… afinal é um fogo ‘artificial’.
Talvez cada dia nos desafie a outros ‘topos’. O ‘topo’ que não passa, que se centra nas pessoas, que integra a natureza, que nos revela como criatura de uma obra maior, que nos mostra a vida que não acaba.

Conjugar cada momento com a contemplação

Uma vida que tem como ‘farol’ Cristo descobre que o topo não está em cada um de nós, nem no que temos, nem no que somos… mas no que podemos partilhar uns com os outros, no que podemos construir de novo, na solidariedade alicerçada em gestos concretos centrados na gratuidade do amor.
A grandeza está na simplicidade natural, a profundidade está na alegria espontânea, a beleza está numa estética com conteúdo e a vida plena está na capacidade de conjugar cada momento com a ‘contemplação’.
A contemplação da natureza que me rodeia, dos outros com quem me cruzo, do trabalho que posso exercer, dos gestos de gratuidade que nos envolvem, da música que nos acompanha.
Contemplar é ‘ver’ Deus onde outros dizem ‘nada de especial’, é deixar-se surpreender, é sentir a emoção, é deixar vibrar o coração… contemplar é saber-se profundamente agradecido, é passar o dia a dizer ‘obrigado’. ‘Obrigado Senhor pelo tanto que me dás… e perdoa o pouco que de mim recebes’ (cf. Hino de Completas da Liturgia das Horas).

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